A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de São Paulo (Abrasel SP) lançou uma cartilha intitulada “Apostas na Copa – Como proteger sua equipe durante o Mundial” para auxiliar empresários do setor a identificar sinais de dependência em apostas online, conhecidas como bets. A iniciativa ocorre em meio ao aumento do engajamento com o esporte durante a Copa do Mundo, período em que a publicidade de bets se intensifica e o fluxo de clientes em bares e restaurantes cresce.
Contexto e motivação da cartilha
Gabriel Pinheiro, líder executivo da Abrasel SP, explicou que a cartilha surge neste momento porque o Mundial “é um momento de mobilização em torno do esporte, com um aumento natural do engajamento, combinado com a rotina intensificada de trabalho no nosso setor para atender ao fluxo de clientes, o que cria o cenário ideal para uma ação preventiva de gestão de pessoas”. O objetivo, segundo ele, “é permitir que as lideranças de salão e cozinha consigam identificar precocemente qualquer sinal de desequilíbrio financeiro ou comportamental, oferecendo o suporte necessário e garantindo a estabilidade da operação”.
Sinais de alerta em quatro áreas
A cartilha divide os sinais de alerta em quatro grupos: financeiro, comportamental, social e no trabalho. No âmbito financeiro, os indicadores incluem “pedidos frequentes de adiantamento salarial; empréstimos recorrentes entre colegas; e relatos constantes de dificuldades financeiras e dívidas”. Débora Montuan, do Gusta Gastrobar, identificou esses sinais em um motoboy fixo da casa. “Ele pedia para não pagar por dia, mas em alguns momentos solicitava o pagamento da diária”, segundo ela, “sem dúvidas” por precisar de dinheiro devido a apostas.
Já no comportamento, um auxiliar de cozinha “ficava nervoso porque não permitíamos o uso de celular durante o expediente. Daí, toda hora ele ia ao banheiro, onde ficavam os armários, para mexer”. Isso se enquadra nos sinais comportamentais, que incluem “uso excessivo do celular durante o expediente; ansiedade relacionada aos resultados dos jogos; e agitação ou preocupação excessiva em dias de partidas”. A irritabilidade também é mencionada como um problema a ser observado.
Impacto social e no trabalho
Socialmente, os sinais incluem “isolamento dos colegas; irritabilidade; e reações desproporcionais a situações rotineiras”. No ambiente de trabalho, “queda de desempenho sem motivo aparente; erros incomuns; e faltas e atrasos recorrentes” também são alertas. Mauricio Nishimori, do Guinza Sushi, já identificou colaboradores do salão e do balcão de sushi que apostam. “Eu ouço bastante um falando que ganhou determinada quantia, outro que apostou tanto, mas, normalmente, escuto que alguém apostou 10 reais, perdeu e parou por aí, tem um certo autocontrole”, conta o dono.
Outros jogos de azar também preocupam
Mauricio Nishimori ainda não observou vício em bets em seus funcionários, mas outro jogo de azar consumiu um deles. “Um funcionário que está conosco há três meses tinha problema com caça-níqueis, todo dia 20 - quando recebia o salário - sumia dois dias, ficava incomunicável, não aparecia e, de repente, voltava”. Ele acrescenta que o vício já foi um problema na sua brigada, mas “era com álcool”; agora, as apostas e jogos de azar estão chamando sua atenção. Problemas de dívidas com agiota foram identificados tanto pelo dono do Guinza quanto pela do Gusta Gastrobar.
Estabilidade pessoal e ambiente de trabalho
Gabriel Pinheiro destaca que a associação vem observando uma “preocupação crescente com a saúde financeira e o bem-estar das equipes. O setor de bares e restaurantes já enfrenta desafios estruturais severos de retenção de talentos e rotatividade de mão-de-obra. Diante disso, os gestores perceberam que qualquer fator externo que comprometa a estabilidade pessoal do colaborador impacta diretamente o ambiente de trabalho”. Mauricio Nishimori afirma que, “apesar de não ter observado ainda casos de vício em bets, fico em alerta por saber que funcionários meus apostam online”. E completa: “a gente tem que ajudar as pessoas que estão precisando de ajuda, ainda mais um colaborador que é muito bom, cujo único defeito é o jogo”.
Orientações para abordagem e ajuda
A cartilha também orienta como abordar o funcionário. As dicas incluem: “Escolher um momento adequado para a conversa, longe do pico de trabalho e em ambiente reservado”; “Falar sobre fatos observados, e não sobre julgamentos pessoais”; “Demonstrar preocupação genuína com o bem-estar do colaborador”; “Evitar críticas ou comentários sobre o dinheiro gasto em apostas”; “Deixar claro que o emprego não está em risco por buscar ajuda”; e “Apresentar canais de atendimento e acompanhamento”. Os canais sugeridos são: teleatendimento pelo SUS, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Unidades Básicas de Saúde (UBSs), ambulatórios universitários e Jogadores Anônimos.
Reações do setor
O empresário Facundo Guerra, do Formosa Hi-Fi, publicou um vídeo nas redes sociais sobre a relação entre o consumo de álcool e as apostas. “O meu maior concorrente hoje são as bets”, declara. “Os brasileiros consomem tanto álcool quanto bets no Brasil. Então, não é a noite que está mudando, é o brasileiro que está adoecido, trocando um vício - o álcool - pelo outro. O povo está endividado, quebrado, desesperado, apostando em bets e tem muito pouco tempo para sair e se divertir, para tomar drinque gourmetizado. A geração Z, que a gente tanto fala, é justamente o público-alvo das bets.” Lucas Corazza, por sua vez, posicionou-se contra as publicidades excessivas. “Devia ter uma forma da gente bloquear bets. A gente deveria poder escolher não ver anúncios, porque eles são um problema social enorme.” Ele conclui: “Bets: não assino, não anuncio, não corroboro. Para mim, é um lixo”.



