Quem nasce no Acre aprende desde cedo que algumas palavras fazem parte da rotina tanto quanto o café da manhã ou a conversa na calçada. 'Arengar', 'mangar', 'brocado', 'mufino', 'buiado' e tantas outras expressões atravessam gerações e ajudam a construir uma identidade própria que, muitas vezes, deixa quem vem de fora completamente perdido.
Nesta segunda-feira (15), data em que o Acre celebra 64 anos de elevação à categoria de estado, uma das marcas mais fortes da cultura acreana continua viva no jeito de falar. Mais do que regionalismos, essas palavras carregam histórias, influências de diferentes povos e memórias transmitidas dentro de casa.
Vocabulário que atravessa gerações
Para muitos acreanos, algumas expressões são tão comuns que sequer parecem diferentes. Mas basta alguém de outro estado ouvir uma conversa para perceber que existe um vocabulário próprio espalhado pelos quatro cantos do Acre.
O comerciante Raimundo Nonato lembra de palavras que escutava ainda na infância, no interior. “Eu me lembro quando éramos adolescente e o nosso pai dizia: ‘Vamo pro roçado espiar e pastorar as graúna pra não comer o milho’. Depois falava: ‘vamo logo que vai ter um toró daqui a pouco’. E a mamãe dizia: ‘vamo tirar a roupa do quintal que o pau d’água tá chegando’”, recordou.
Entre as gerações mais novas, o “acreanês” também segue presente. A estudante Larissa Firmeza, de 11 anos, explica uma expressão bastante conhecida no estado. “Para de arengar. Arengar é ficar mexendo contigo, te xingando, tirando brincadeira de mau gosto contigo”, resumiu.
O que significam essas palavras?
Nas redes sociais, a criadora de conteúdo Maxine Silva tem ajudado a popularizar e explicar expressões usadas pelos acreanos. Segundo ela, muitas palavras fazem parte do cotidiano sem que as pessoas percebam o quanto são características da região.
“Maluvido é um menino danado. Arengar é ficar tirando onda da pessoa até irritar ela. Pastorar é observar, tomar conta”, explicou.
Ela também diferencia palavras que costumam causar confusão. “Brocar é limpar um terreno, capinar. Já brocado é quando a gente está morrendo de fome”, disse.
Durante uma conversa sobre o vocabulário regional, surgiram ainda outras expressões bastante conhecidas entre os acreanos.
“Menino bolino é aquela pessoa que mexe em tudo, tira tudo do lugar. Xiringar é borrifar. E engalobar é passar a perna em alguém, sair na frente prejudicando o outro”, acrescentou.
Maxine lembra da surpresa ao descobrir que uma palavra muito usada pelos acreanos possui outro significado em outro estado da Região Norte. “Quando eu falei baldear, que para a gente é lavar os cômodos da casa, me explicaram que no Pará baldear significa vomitar. Achei muito curioso”, disse.
Ela cita ainda outras expressões que costumam gerar dúvidas. “Mufina é uma pessoa fraquinha, franzina. E reparar, para muita gente, significa consertar alguma coisa. Para nós, muitas vezes significa prestar atenção: 'Repara ali o que ele está fazendo’”, exemplificou.
Patrimônio cultural
No Museu dos Povos Acreanos, em Rio Branco, visitantes podem conhecer parte desse vocabulário por meio de atividades interativas, como palavras cruzadas com expressões regionais. O guia histórico Marcelo Lima explica que muitas dessas palavras têm origens diversas e ajudam a contar a formação cultural do estado.
“Eles descobrem e aprendem com a gente o significado de tantas palavras diferentes. Algumas têm origem no Nordeste, outras foram sendo transformadas ao longo do tempo e incorporadas ao jeito acreano de falar”, afirmou.
Segundo ele, o espaço apresenta apenas uma pequena amostra da riqueza linguística local. “Aqui a gente tem dezenas de palavras. Pepeta, por exemplo, é o que em outras regiões chamam de pipa. Carapanã é a muriçoca. Tem espocar, mundiça, atrepado, estrupício e muitas outras que as pessoas vão descobrindo durante a visita”, explicou.
Além das definições, os visitantes podem participar de uma dinâmica para completar um painel com expressões regionais. “A sala é interativa. As pessoas vão preenchendo os espaços com as palavras acreanesas e aprendendo os significados durante a visita”, completou.
Estado que lutou para ser brasileiro
Conhecido como “o estado que lutou para ser brasileiro”, a trajetória do Acre começou ainda no fim do século 19, quando a região passou a ser ocupada por migrantes, principalmente nordestinos atraídos pelo ciclo da borracha. Após disputas entre brasileiros e bolivianos pelo controle do território, a Revolução Acreana resultou na incorporação da região ao Brasil por meio do Tratado de Petrópolis, assinado em 1903.
Apesar disso, o Acre não se tornou estado imediatamente e passou décadas sendo administrado pelo governo federal como território. A autonomia só veio em 15 de junho de 1962, quando o então presidente João Goulart sancionou a lei que elevou o Acre à categoria de estado. No ano seguinte, os acreanos elegeram pela primeira vez seu próprio governador.
Ao longo desse processo, influências indígenas, nordestinas, bolivianas e amazônicas ajudaram a moldar não apenas a cultura local, mas também a forma de falar. Muitas expressões usadas até hoje nasceram dessa mistura e seguem sendo transmitidas de geração em geração.
Seja para mangar dos amigos, arengar os irmãos ou dizer que alguém está brocado depois de um dia corrido, o fato é que o acreanês continua vivo no cotidiano. Um jeito próprio de falar que ajuda a preservar histórias, costumes e a identidade de um povo.



