Forró de favela: dança das periferias de Fortaleza ocupa novos espaços
Forró de favela: dança ganha novos espaços em Fortaleza

O forró de favela ultrapassou as ruas dos bairros periféricos de Fortaleza e se espalhou por diferentes regiões da capital cearense. A dança, caracterizada por um ritmo mais lento e romântico, com casais dançando colados e executando os chamados “passinhos”, tornou-se fenômeno dentro e fora das comunidades. O termo é usado para designar o chamado “forró romântico”, uma variação que faz o participante “sentir a letra” em vez de apenas seguir as batidas aceleradas do forró tradicional.

Uma dança com identidade própria

Diferentemente do forró tradicional, que costuma ter rodopios rápidos e passos marcados pelas batidas, o forró de favela exige um jogo de cintura envolvente e uma conexão maior entre os dançarinos. É uma experiência em que a letra da música conduz o movimento, criando uma atmosfera mais intimista e colada.

Para o sociólogo Marcelo Ribeiro, doutor pela Universidade Federal do Ceará (UFC), o nome é uma designação para o “forró romântico”. “O forró de favela é uma reconfiguração de práticas que já existiam nas comunidades periféricas de Fortaleza e de todo Brasil, que são os espaços de sociabilidade lúdica de lazer, que envolvem as músicas”, disse.

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Origem nos anos 1990 e expansão nas redes

O movimento surgiu nas periferias da capital cearense ainda nos anos 1990, por meio de festas promovidas nas comunidades e comandadas por DJs. Esses eventos nasceram de uma necessidade das classes populares de consumir o que tocava no rádio, sem ter condições de pagar ingressos para as grandes casas de show.

“Foi uma forma de resposta das classes populares, que queriam consumir o que era ouvido no rádio, mas não teriam condições de pagar para ir aos shows nas grandes casas. Por isso que o forró de favela tem uma estética própria, é uma resposta a uma demanda de mercado. [...] Hoje existem bandas especializadas no forró romântico, que o álbum quase todo tem as músicas com métricas sonoras melódicas do forró de favela”, afirmou o sociólogo.

Segundo Marcelo Ribeiro, o avanço das redes sociais foi decisivo para levar o forró de favela para além das periferias. “O aumento da popularização do forró de favela se dá muito porque cada vez mais esses agentes periféricos estão ganhando espaços no debate social. Com esse grande parlatório digital essas figuras, que muitas vezes ficavam restritas a seus bairros, ganharam seguidores e com o que publicam vão ganhando mais adeptos”, explicou.

Grupos comunitários ensinam a dança

A popularização na internet despertou o interesse de novas pessoas em aprender o forró de favela. Isso levou à formação de coletivos voltados ao ensino da dança em diversos bairros de Fortaleza e Região Metropolitana. Um desses grupos é o Complexo do Passinho, fundado em 13 de fevereiro de 2025, no Conjunto Tancredo Neves, no Bairro Jardim das Oliveiras.

“O grupo surgiu a partir da necessidade de entretenimento e ação social aos moradores do bairro e das proximidades, fora das redes sociais”, contou Dynha Souza, fundadora da iniciativa. Uma vez por semana, às quintas-feiras, Dynha e outros instrutores se reúnem na sede de uma associação comunitária para receber o público. Durante cerca de duas horas e meia, os professores ensinam os passos aos aprendizes.

Dynha destaca a diferença entre o ritmo tradicional e o forró de favela: “A diferença de ritmo é porque o forró tradicional é um forró mais solto e o nosso é algo mais voltado ao romântico, uma dança colada, mais lenta, que às vezes lembra o reggae”. Ela também ressalta que o termo “forró de favela” não é pejorativo para quem pratica, mas reconhece que o nome pode gerar preconceito. “Existe um preconceito para algumas pessoas, devido ao nome. Porém, isso em nenhum momento interfere ou descredibiliza o trabalho lindo que tem sido feito através do forró de favela, nem impedido de se tornar algo tão grande como está hoje. Em Fortaleza e na Região Metropolitana já são mais de 30 grupos nos bairros, cada um com a sua organização”, afirmou.

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Aulões abertos à comunidade

No Bairro Vicente Pizón, o grupo Chama no Passinho também se dedica a difundir a dança. Criado em 2025, o coletivo organiza aulões abertos para moradores da região. “O grupo surgiu em 2025, pois a gente gosta muito de dançar o forró de favela e aqui no Vicente Pizón o pessoal até conhecia, mas não sabia dançar, então resolvemos fazer esse projeto”, disse Kelly Karol, uma das instrutoras.

O Chama no Passinho se reúne três vezes por semana, com aulas no Vicente Pizón e também no Bairro Serviluz. “Atualmente temos 20 professores, já o número de alunos é variado. Tem encontro que tem de 30 a 40 pessoas para aprender o forró de favela”, contou Kelly. Com iniciativas como essas, a dança que nasceu nas periferias fortalece sua presença na cidade, unindo lazer, cultura e ação social em diferentes territórios.