Duas pessoas foram presas nesta sexta-feira (10) suspeitas de envolvimento com a plantação de 290 mil pés de maconha encontrada em Acopiara, no interior do Ceará. A dupla, de 21 e 47 anos, foi capturada em Orós, a cerca de 96 km de Acopiara, em cumprimento de mandados de prisão temporária por tráfico de drogas e associação para o tráfico. A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) não divulgou os nomes dos presos.
Delegados exonerados após polêmica
Os delegados da Polícia Civil do Ceará (PCCE) Vicente de Paula Rodrigues e Marcos Sandro Nazaré de Lira foram exonerados dos cargos que ocupavam. Eles são investigados pela conduta na ocorrência da plantação com 290 mil pés de maconha em Acopiara. Vicente era titular da Delegacia de Acopiara e Marcos Sandro, delegado seccional da 4ª Seccional do Interior Sul. A exoneração retira ambos dos cargos de chefia, mas eles permanecem como policiais civis.
A defesa dos delegados, representada pelos advogados Leandro Vasques e Seledon Dantas, considerou a instauração do processo administrativo disciplinar como “completamente precipitada e desarrazoada, tendo em vista que sequer houve procedimento apuratório preliminar para se investigar o fato na sua amplitude e delimitar as responsabilidades, o que denota um açodamento que tem contornos de prejulgamento”. Eles lamentaram que “se queira adotar essa toada a um caso tão sensível” e que “a espetacularização em torno do caso arrasta a investigação para o pelourinho da praça pública, atende não aos ideais de Justiça, mas a antecipação imprudente de conclusões”.
Fundamentação legal da exoneração
A Polícia Civil baseou a exoneração na Lei nº 13.441/2004, que dispõe sobre o processo administrativo-disciplinar para policiais civis do Ceará. A lei determina que o policial respondendo a processo administrativo-disciplinar fica impedido de permanecer em cargo comissionado ou ser nomeado para função de chefia até o fim do julgamento. A corporação afirmou que a exoneração é “efeito legal automático e temporário, não de antecipação de julgamento de mérito”. Os delegados permanecem em atividade, mas fora das funções de chefia.
Apreensão histórica e polêmica
A plantação foi descoberta no dia 25 de junho durante operação da Polícia Civil em Acopiara. Foram localizados cerca de 160 mil pés de maconha em fase de cultivo e outros 130 mil já colhidos, totalizando 290 mil pés e aproximadamente 5 toneladas da droga. A apreensão é considerada uma das maiores da história do estado.
No entanto, a operação gerou polêmica após denúncia do deputado federal André Fernandes (PL), que afirmou que o local foi abandonado pelos policiais com as drogas ainda lá. No dia 27 de junho, Fernandes publicou vídeos mostrando a plantação e drogas ensacadas sem vigilância. Dois dias depois, o governador Elmano de Freitas (PT) visitou a fazenda e disse que a plantação seria destruída. “Nós vamos apurar absolutamente tudo. Nós não vamos passar a mão na cabeça de ninguém”, afirmou.
André Fernandes encontra droga enterrada
Na quinta-feira (2), André Fernandes voltou ao local e afirmou ter encontrado pés de maconha enterrados. Ele disse que escavou uma área e encontrou a droga, sendo interrompido por uma equipe da Polícia Civil que chegou durante a gravação. “Comprovei que o governador mentiu. A droga não foi incinerada. Ela foi enterrada”, declarou o deputado. Ele também afirmou que haveria mais drogas enterradas no restante da área, que foi revolvida por tratores da Superintendência de Obras Públicas (SOP).
A Polícia Civil, por sua vez, informou que concluiu a incineração controlada da plantação no dia 2 de julho. O delegado Pedro Viana, diretor do Departamento de Polícia do Interior Sul, explicou que o material encontrado por Fernandes são restos da plantação e de outras plantas destruídas. “Claramente, se vê que não é maconha. Quem não entende acha que isso aqui é maconha. A maconha não é feita de raízes. O material da maconha está devidamente queimado e destruído”, disse. A corporação informou que a técnica usada pelo Corpo de Bombeiros consistiu em cavar valas, queimar as plantas com gasolina e óleo diesel e cobrir com terra para evitar propagação do fogo.
Investigações e ações legais
O Partido Liberal (PL) informou que vai acionar o Ministério Público Federal (MPF), a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) para apurar os novos fatos, preservar provas e identificar agentes públicos envolvidos. O partido avalia ainda abrir ação de improbidade administrativa contra o governo estadual.
A Controladoria Geral de Disciplina do Ceará (CGD) abriu investigação para apurar a conduta dos policiais responsáveis pela preservação do sítio. O MPCE informou que acompanha as investigações por meio do Gaesp e do Gaeco. A SSPDS também investiga a denúncia de falha nos procedimentos de custódia.
O proprietário da fazenda, João Holanda Neto, foi preso temporariamente no dia 2 de julho e solto no dia 3. O arrendatário, Cristiano Rodrigues de Lima, está foragido.



