Viúvas mantêm tradição de acender fogueiras em honra a São Pedro na Bahia
Viúvas mantêm tradição de fogueiras de São Pedro na Bahia

No interior da Bahia, um costume particular dos festejos juninos chama a atenção: fogueiras acendidas majoritariamente por mulheres viúvas na véspera do dia de São Pedro, 28 de junho. Em municípios da região sudoeste do estado, como Macaúbas, Botuporã e Tanque Novo, a tradição é predominantemente feminina, embora também seja adotada, ocasionalmente, por homens viúvos.

Origem e significado da tradição

O professor Alan José Alcântara de Figueiredo, doutor em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), discute a origem das fogueiras juninas associando-as a diferentes grupos de pessoas e santos. O historiador Uilson Magalhães Silva, professor da rede pública estadual de Botuporã, complementa afirmando que a tradição é originária da Península Ibérica e chegou ao Brasil com os portugueses.

Segundo essa vertente, o costume de pessoas que perderam seus cônjuges acenderem fogueiras no dia de São Pedro está ligado à crença de que o santo teria sido viúvo — hipótese que divide estudiosos e segue em debate dentro da própria Igreja Católica. Ainda assim, essa interpretação ganhou grande popularidade e contribuiu para a ampla difusão da prática na região, sobretudo devido à forte influência do catolicismo.

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Relatos de quem mantém a tradição

Maria Rosa Batista, de 71 anos, moradora do povoado de Curralinho, na zona rural de Macaúbas, conta que a tradição existe desde muito antes de ela nascer. Além do acendimento da fogueira, o costume envolve o preparo de comidas típicas e é celebrado de forma semelhante às festas de São João, com direito a samba e bailes. ''Se na casa das viúvas tivesse outra família morando junto, faziam duas fogueiras — a de São João e a de São Pedro'', explica em entrevista ao g1.

Olevina Auta Batista, de 94 anos, outra moradora da comunidade de Curralinho, conta que acende a fogueira em homenagem a São Pedro há mais de 40 anos. O hábito começou um ano após a morte do marido, como é o costume, e permanece até hoje. A aposentada lembra que, na juventude, costumava participar dos encontros realizados nas casas de amigas e comadres, marcados por muita animação, comidas típicas e música. ''Eu ia para a casa da finada Constância [amiga] e fazia a festa. Bebia café com bolo, o povo tocava sanfona e violão, e nós 'pintava e bordava', dançando escondido do meu finado padrinho Everaldo'', recorda, saudosa.

Outra representante da tradição

Zulmira Dias, de 65 anos, moradora da comunidade de Pajeú, na zona rural de Botuporã, acende a fogueira há 10 anos, tendo começado um ano após a morte do marido, assim como Olevina. No começo, Zulmira não queria aderir ao costume, mas acabou cedendo após a insistência e incentivo dos filhos. Ela ressalta, no entanto, que não vê a data como uma comemoração. ''Não é um dia animado, mas é uma data para celebrar a vida de quem ficou e lembrar de quem já se foi''. Por esse motivo, Zulmira não permite que soltem fogos de artifício durante a confraternização, diferentemente do que ocorre na casa de outras viúvas da comunidade.

Perda de força entre as novas gerações

Como relatam estudiosos e adeptos da prática, o ritual de acender as fogueiras em homenagem a São Pedro é mais uma tradição que vem perdendo espaço nos últimos anos. Maria Rosa destaca que em Macaúbas as fogueiras são acendidas especialmente por mulheres idosas. Segundo ela, muitas viúvas mais jovens não demonstram interesse em dar continuidade ao rito ou acabam se casando novamente, o que contribui para a redução do número de participantes da manifestação. Situação semelhante foi observada por Olevina Auta, que nota falta de apoio dos próprios familiares das viúvas na preparação da fogueira.

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O historiador explica o contexto social

O historiador Uilson Magalhães Silva explica que, no passado, as viúvas enfrentavam muitos preconceitos, exclusão e estigmas sociais. Nesse contexto, a fogueira de São Pedro representava não apenas um ato de fé e devoção ao santo, mas também uma forma de afirmação de sua condição e de pertencimento à comunidade. Já entre os homens, segundo ele, havia uma tendência maior de se afastar da identidade de viúvo. ''Geralmente me parece que o viúvo está vaidoso, quer casar de novo, quer esquecer que é viúvo. Por isso, não costuma falar sobre essa condição nem acender a fogueira. Já a viúva, muitas vezes, vê de outra forma: 'Sou viúva, essa é a minha condição, e vou acender a fogueira, sim'''', afirma.

Outros rituais associados

Além das fogueiras, moradores de Pajeú e de localidades vizinhas mantêm ainda outro costume: a confecção de um adereço semelhante a uma coroa, feito com plantas da região, como marcela e erva-de-são-caetano. A coroa deve ser produzida e utilizada antes do nascer do sol, juntamente com a água benta, simbolizando a fé e a devoção aos santos celebrados no mês de junho. De acordo com Zulmira e Maria Rosa, a coroa é colocada também por quem deseja participar da prática de ''rodar a fogueira'', tradição bastante popular nos festejos juninos como um rito de purificação ou batismo.

Outro elemento importante desse conjunto de rituais é o tição — pedaço de lenha retirado da fogueira de São Pedro antes de ser totalmente consumido pelas chamas. Como manda a tradição popular, o objeto é guardado para proteger as casas contra chuvas fortes, já que São Pedro também é considerado o ''santo das chuvas''.