Uma parceria entre pesquisadores e o povo indígena Panará, que vive no norte do Mato Grosso e sul do Pará, apontou indícios de uma possível nova espécie de árvore na Amazônia e abriu caminho para um monitoramento da fauna em parte do território indígena. Os resultados foram apresentados em Belém, durante o Seminário Saberes e Conservação de Territórios Indígenas, realizado entre os dias 18 e 20 de junho na Universidade Federal do Pará (UFPA).
Estudo colaborativo de três anos
O estudo integra um inventário colaborativo feito ao longo de três anos na Terra Indígena Panará, na Amazônia Legal, e reúne dados sobre botânica e mastofauna com forte participação da comunidade. A ideia da pesquisa foi reforçar a ideia de que conhecimento científico e saber tradicional podem caminhar juntos na proteção da floresta.
Indício na botânica
A principal novidade veio do trabalho com as árvores. Em uma área de um hectare, os pesquisadores analisaram quase 500 exemplares e identificaram uma planta chamada pelos Panará de “Já”, da mesma família do louro e da canela. Pelas características observadas nas folhas, a equipe considera haver fortes indícios de que se trata de uma espécie ainda desconhecida pela ciência. A confirmação, no entanto, ainda depende de uma etapa essencial que é encontrar flores ou frutos da árvore para concluir a catalogação.
A avaliação foi apresentada pelo pesquisador Domingos Cardoso, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e coordenador da plataforma Flora e Funga do Brasil. Ele destacou a participação direta dos indígenas na próxima fase do estudo. Cardoso afirma que "a busca por mais elementos para fechar a identificação ficará a cargo do próprio povo Panará, que conhece o território de perto e acompanha o processo desde o início". "A expectativa é que a comunidade ajude a encontrar a planta em condição de completar o registro científico", pontuou.
Fauna monitorada
Além da botânica, o projeto também registrou informações sobre mamíferos na metade sul do território. O monitoramento da chamada mastofauna foi coordenado pela professora Ana Cristina Mendes de Oliveira, do Laboratório de Ecologia e Zoologia de Vertebrados da UFPA, com uso de censo visual e armadilhas fotográficas. Entre os dados obtidos, a equipe observou a presença de antas e porcos-do-mato e chamou atenção para a relação de convivência entre esses animais e a comunidade. Os porcos-do-mato, por exemplo, são parte da alimentação indígena, mas também invadem com frequência as aldeias, o que cria uma convivência marcada por respeito, temor e necessidade de manejo.
Para devolver os resultados aos moradores, os pesquisadores criaram o “Cine Bicho”, uma espécie de sessão de cinema nas aldeias com imagens dos animais flagrados pelas câmeras na floresta. A iniciativa usou lençóis como telões e virou, segundo a equipe, uma atividade de grande adesão entre os Panará.
Ciência com território
A experiência também mudou a rotina dos pesquisadores. A bióloga e pós-doutoranda Giovana Oliveira, que foi apelidada pelos indígenas de “Tenco”, afirmou que "o trabalho em campo foi guiado pelo conhecimento territorial dos próprios Panará, que indicaram onde posicionar as câmeras e ajudaram a interpretar os movimentos da floresta". Para ela, "a convivência com a comunidade ampliou a forma de fazer ciência e mostrou que a observação indígena é parte essencial da leitura sobre os mamíferos e sobre o ambiente".
Protagonismo indígena
O inventário colaborativo contou com apoio da Conservação Internacional, do Instituto Socioambiental e da Associação Indígena Iakiô. Para o povo Panará, a iniciativa tem peso simbólico e político, já que reforça a autonomia da comunidade na produção de conhecimento sobre seu próprio território. O presidente da Associação Iakiô, Pysy Panará, afirmou que "a pesquisa foi importante para aproximar a comunidade da ciência e para valorizar o que existe nas terras indígenas".
Os Panará também esperam ampliar o monitoramento para a metade norte do território, que ainda não foi explorada pelo projeto. O desafio, no entanto, é financeiro já que os recursos se esgotaram, o que preocupa os pesquisadores e a comunidade. Para os pesquisadores e para os Panará, o trabalho conjunto mostra que a floresta guarda mais respostas do que a ciência conseguiria encontrar sozinha.



