Ribeirão Preto (SP) completa 170 anos de história em 2026. O município começou a partir de pequenas fazendas, cresceu impulsionado pela agricultura e teve o desenvolvimento econômico e urbano marcado diretamente pelo trabalho de moradores que criaram raízes e ajudaram a construir a identidade de diversos bairros ao longo das décadas. Para entender a evolução da cidade, que hoje tem mais de 738 mil habitantes, é preciso conhecer trajetórias como a do luthier Berto Silva, famoso por recuperar e fabricar instrumentos musicais na zona Norte, e de trabalhadores como o aposentado José Roberto França, que dedicou a carreira às operações ferroviárias que transformaram a região.
Esta reportagem faz parte de uma série especial da EPTV, afiliada da TV Globo, para celebrar os 170 anos de Ribeirão Preto, comemorados em 19 de junho. A proposta é mostrar como histórias simples e humanas de trabalhadores locais ajudam a contar a trajetória de uma das cidades mais importantes do interior de São Paulo.
O 'milagreiro' das cordas no Ipiranga
Na zona Norte, o bairro Ipiranga cruzou com o destino de José Roberto Benedicto da Silva, conhecido como Bertho Silva, de 74 anos. Nascido em Cravinhos (SP), ele chegou a Ribeirão Preto com pouco mais de 20 anos, recém-casado, em busca de oportunidades. Apaixonado pela música, o então professor de violão popular, que deu aulas no Sesc entre 1976 e 1977 e ajudou a formar nomes ligados ao Clube da Viola, encontrou na lutheria a verdadeira vocação. "Eu parei de tocar e comecei a consertar... com S! Fiz muita coisa lá no Ipiranga, muito, muito mesmo. Bastante amizades, inclusive recebi conserto de estrangeiro. Todo mundo me conhecia como o 'senhorzinho do violão'", relembra.
Durante 35 anos, ele manteve uma oficina na Rua Camaragibe, onde ganhou a fama de "milagreiro". Entre os músicos da cidade, Berto Silva é conhecido por recuperar instrumentos que outros profissionais consideravam perdidos, destruídos por cupins ou com braços totalmente quebrados. Ele estima que mais de 50% dos violões e violas da cidade já passaram pelas mãos dele.
A criatividade do luthier resultou em invenções próprias. O artesão fabricou a "caixola", um instrumento criado a partir de uma caixa de madeira improvisada após um cliente chegar com o violão quebrado. "Um cara chegou lá na oficina e disse: 'Nossa, mas quebrou, caí em cima'. Daí eu olhei assim na caixa e falei: 'eu vou fazer uma caixa'. Peguei uma madeira, fiz e saiu, então, a caixola", conta.
Casado com dona Neli há 50 anos, ele formou uma família de três filhos: o militar Vagner, a comissária de bordo Kelma e Vanessa, que decidiu seguir os passos do pai e hoje divide o ofício com ele no atendimento aos clientes. Com cinco netos e à espera do segundo bisneto, o luthier mudou a oficina para o Jardim Paulista, na zona Leste. Para ele, Ribeirão Preto funcionou como uma alavanca para a música e para a formação de sua família. "Foi uma alavanca dos dois lados, sabe? Pra música e pra mim, pra minha família. Os meus filhos nasceram aqui. Realmente, Ribeirão Preto é o coração, é a veia mais sadia da música na minha vida", diz o luthier.
A vida nos trilhos e a homenagem em miniatura
A chegada da ferrovia da Companhia Mogiana a Ribeirão Preto, na década de 1880, foi essencial para escoar o café e atrair trabalhadores. Esse cenário faz parte da vida de José Roberto França, de 80 anos. Ele começou a trabalhar nas ferrovias aos 13 anos como aprendiz na estação de São Simão (SP) e, nos anos 1970, mudou-se para atuar nas operações de Ribeirão Preto. Ao longo da carreira, passou por funções como marceneiro e eletricista até se aposentar como mecânico de locomotivas. Este foi seu único emprego com registro na carteira de trabalho.
O aposentado conta que as antigas locomotivas a vapor chegavam muito quentes das viagens e exigiam cuidado, mas afirma que era muito feliz no ambiente de trabalho com os colegas. "Eu entrei lá e era locomotiva a vapor. Ela chegava de viagem funcionando, aquilo vinha quente, você não podia encostar em nada nela que ela queimava. A minha função primeiro era marceneiro, depois eu fui aprendendo de mecânico, eletricista. Tudo o que se fazia dentro das oficinas, a gente podia aprender. Os funcionários, os amigos que a gente tinha, era muito feliz lá dentro", relembra.
Viúvo há um ano e morador do bairro Quintino Facci, ele encontrou conforto e reconhecimento de uma forma inesperada. No bairro Lagoinha, o metalúrgico José Leonel, também apaixonado pelo universo ferroviário, construiu uma miniferrovia para manter viva a história dos trens na cidade. A principal estrutura da maquete foi batizada como "Estação Mogiana Engenheiro José Roberto França". "Resolvi homenagear a estação Mogiana e a todos os funcionários da primeira ferrovia a chegar a Ribeirão Preto. Cada casa nessa minicidade tem um nome, mas essa é fundamental, e está do lado esquerdo: a nossa estação Engenheiro José Roberto França", explica Leonel.
Para o homenageado, a maquete é o retrato de uma vida inteira dedicada aos trilhos que fizeram a cidade crescer. "Na hora da inauguração da estação, a emoção foi muito forte, porque foi minha vida, é a minha paixão. Não sai do peito, é paixão verdadeira mesmo", emociona-se.
As raízes de Ribeirão Preto
Fundada em 19 de junho de 1856, Ribeirão Preto consolidou-se como uma potência econômica graças à união do transporte ferroviário e da produção rural. A cidade ganhou fama de "Capital do Café", e a riqueza gerada pela agricultura financiou a construção de casarões, praças e teatros. O nome do município tem origem em um córrego de águas escuras que cortava a região nos primeiros anos de ocupação. A coloração era causada pela vegetação, pelo solo e pela matéria orgânica no leito do rio. Outro curso d'água importante no desenvolvimento da cidade foi o Ribeirão Retiro Saudoso. O nome faz referência à antiga Fazenda Retiro Saudoso, uma das primeiras propriedades rurais do município, e serviu como referência para a ocupação do território que transformou a localidade no gigante de comércio, serviços e agronegócio de hoje.



