Os semicondutores estão presentes, de forma silenciosa, em celulares, computadores, veículos, equipamentos médicos e máquinas industriais. Eles também são essenciais para o funcionamento dos data centers que processam inteligência artificial. A disputa por esses componentes deixou de ser apenas uma questão comercial e passou a envolver política industrial, financiamento público e autonomia econômica.
Embora esse cenário pareça distante da Amazônia, ele também se reflete no Polo Industrial de Manaus (PIM), que reúne fabricantes de celulares, televisores, computadores, motocicletas e outros produtos cada vez mais dependentes de chips. O desafio local é converter a escala produtiva existente em maior participação nas etapas de maior valor tecnológico da cadeia.
Brasil Semicon e o novo apoio financeiro ao setor
Um passo recente nessa direção foi a regulamentação do Programa Brasil Semicondutores, o Brasil Semicon. O Decreto nº 13.065, publicado em 15 de julho, criou um conselho gestor e autorizou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) a apoiar a implantação, a modernização e a expansão de empreendimentos do setor.
A política também procura integrar pesquisa, formação profissional, design, software e produção, criando condições para que o país desenvolva uma base própria em torno dos chips. O Brasil, no entanto, está distante da escala alcançada pelos principais países asiáticos e dificilmente dominará, no curto prazo, todas as etapas da fabricação.
O espaço do PIM na cadeia produtiva
Há espaço para atuação em segmentos como design, sensores, memórias, componentes de potência, testes, montagem, encapsulamento e integração de módulos. É nesse campo que o PIM pode encontrar uma posição mais realista na indústria global.
A região possui experiência consolidada em manufatura eletroeletrônica, automação e montagem de produtos complexos, além de uma demanda industrial concentrada por componentes. Ainda assim, precisa ampliar a capacidade de desenvolver e fabricar parte da tecnologia incorporada aos bens que saem de suas linhas de produção.
Um exemplo dessa conexão está na Zilia Technologies. A empresa mantém em Manaus uma fábrica que produz cerca de 7 milhões de módulos de memória e dispositivos de armazenamento por ano. Já a unidade de Atibaia, no interior de São Paulo, concentra a produção anual de aproximadamente 150 milhões de chips.
Investimento do BNDES na Zilia
O BNDES aprovou R$ 143,3 milhões para pesquisa, aquisição de equipamentos e modernização da operação da Zilia. Os recursos serão destinados principalmente à fábrica de Atibaia, incluindo máquinas de montagem, testes, manipulação e medição, além do desenvolvimento de memórias voltadas a servidores, data centers e aplicações de inteligência artificial.
Embora o maior aporte esteja concentrado em Atibaia, a operação amazonense demonstra que Manaus já participa de uma etapa dessa indústria. A fábrica no PIM serve como ponto de partida para discutir expansão, novos fornecedores, pesquisa e formação de profissionais.
A corrida internacional por semicondutores
Enquanto o Brasil organiza seus instrumentos de apoio, a China mostra a dimensão financeira dessa corrida. A fabricante de memórias ChangXin Memory Technologies (CXMT) captou US$ 8,6 bilhões em sua estreia na Bolsa de Xangai, em 27 de julho. As ações encerraram o primeiro dia de negociação com valorização de 466%, um sinal de como o mercado de capitais passou a financiar projetos industriais considerados estratégicos.
O Vietnã também busca avançar da montagem de produtos eletrônicos para etapas de maior valor tecnológico. Em 30 de julho, o governo vietnamita reuniu-se com representantes da SEMI Southeast Asia para discutir a aproximação com as mais de 3 mil empresas ligadas à entidade, a atração de investimentos e a formação de engenheiros. O encontro não trouxe anúncio de novos projetos, mas soma-se às iniciativas de países que buscam fortalecer sua posição na cadeia global de semicondutores por meio da articulação entre governo, indústria e qualificação profissional.
O que falta para Manaus avançar
O Brasil Semicon, o financiamento público e a presença da Zilia criam uma base, mas não garantem resultados. O avanço dependerá de projetos capazes de conectar a política nacional às necessidades dos setores instalados no PIM.
Na avaliação de Cristina Monte, colunista e analista de negócios especializada em indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia, a questão não é se Manaus conseguirá fabricar todos os tipos de chips. O ponto central é saber se a região poderá aproveitar sua escala industrial para deixar de ser apenas consumidora desses componentes e assumir uma posição de maior valor tecnológico na cadeia.



