O governo dos Estados Unidos apresentou um relatório na terça-feira (2) no qual utiliza o desmatamento ilegal na Amazônia como um dos principais argumentos para justificar a proposta de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros. O documento também cita o suposto uso de trabalho forçado na produção de gado, o que embasaria tarifas adicionais de 12,5% para países que não proíbem a importação de mercadorias produzidas com essa prática. A investigação alega que o Brasil pratica concorrência desleal ao oferecer preços baixos em produtos como madeira e carne, pois eles seriam produzidos em áreas onde ocorrem crimes ambientais e, em alguns casos, trabalho escravo.
Dados defasados e omissões
Para sustentar a acusação, o relatório recorre principalmente a dados de desmatamento, mas utiliza índices já defasados. Um dos exemplos é o aumento do desmatamento em 2021, um dos maiores já registrados no país, durante o governo de Jair Bolsonaro. Embora esse dado seja real, o documento ignora os números mais recentes que mostram uma redução significativa dos índices e das ilegalidades. O Brasil registrou, em 2025, a menor taxa de desmatamento na Amazônia em mais de dez anos, com uma queda de 11% em relação ao período anterior. Apesar da redução, o desmatamento ainda não é zero — meta que o governo federal estabeleceu para 2035.
A maior parte do corte nas florestas brasileiras é ilegal, e o governo Trump utiliza essa informação para apontar uma omissão sistêmica por parte das autoridades brasileiras, algo que o governo federal nega veementemente.
Falhas na fiscalização e auditoria
O documento alega que, embora existam leis como o Código Florestal e o Cadastro Ambiental Rural (CAR), as autoridades brasileiras não realizam auditorias adequadas para detectar fraudes ou informações falsas. Afirma-se que falta o cruzamento frequente de dados do CAR com imagens de satélite e que há investimento insuficiente em tecnologia de fiscalização. No entanto, especialistas refutam essas alegações. Cláudio Almeida, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coordenador do programa de Monitoramento da Amazônia e demais biomas, afirma que o Brasil possui monitoramento em tempo real de seus biomas, com uma série histórica que permite entender o avanço ou declínio do desmatamento, identificar áreas vulneráveis e aplicar sanções à distância. Além disso, algoritmos de inteligência artificial são utilizados para apoiar a fiscalização.
O Brasil é referência internacional no mapeamento de biomas via satélite, e instituições norte-americanas já reconheceram essa tecnologia. O pesquisador ressalta que a afirmação de falta de investimento é um engano e uma visão distorcida da realidade.
Fraude e lavagem de produtos
A investigação alega a prevalência de fraudes no setor de madeira, onde documentos oficiais seriam insuficientes para garantir a origem legal do produto. Da mesma forma, pecuaristas “lavariam” gado criado em terras desmatadas ilegalmente, transferindo-os para matadouros legítimos. O documento aponta que, entre 2023 e 2024, 91% do desmatamento na Amazônia foi ilegal. No Cerrado, onde os limites legais são mais flexíveis, estima-se que 51% da supressão de vegetação tenha sido ilegal no mesmo período. Outro estudo indica que 95% da perda florestal para conversão agrícola entre 2013 e 2019 foi provavelmente ilegal.
Contradições nas tarifas
Apesar de associar repetidamente o desmatamento à pecuária e à exploração ilegal de madeira, a lista de produtos poupados da sobretaxa inclui justamente itens desses mercados. No caso da carne bovina, ficaram de fora da tarifa cortes frescos, refrigerados e congelados, com ou sem osso, além de miúdos, carne processada, seca, defumada e enlatada. Os Estados Unidos são um dos principais compradores da proteína brasileira: em 2025, as exportações do setor para o país somaram US$ 814,6 milhões.
Da mesma forma, a lista de exceções preserva diferentes tipos de madeira tropical, incluindo espécies como mogno, virola (conhecida popularmente como ucuúba) e imbuia, árvores frequentemente citadas em discussões sobre exploração ilegal e pressão sobre florestas nativas. Para especialistas, essa contradição enfraquece o argumento ambiental utilizado pelo governo Trump.
Márcio Astrini, do Observatório do Clima, afirma que o presidente norte-americano usou a questão ambiental apenas para criar uma narrativa contra o Brasil, já que as exceções beneficiam justamente os setores mais ligados ao desmatamento. Outro produto poupado foi o ouro, cuja exploração ilegal na Amazônia está associada a desmatamento, contaminação por mercúrio e conflitos socioambientais.
Avanços brasileiros ignorados
Nos últimos anos, o governo e o setor privado ampliaram mecanismos para combater os problemas citados na investigação americana. Entre eles estão o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB), criado para rastrear individualmente os animais do rebanho brasileiro, e o Termo de Ajustamento de Conduta da Carne (TAC da Carne), acordo entre frigoríficos e o Ministério Público Federal para evitar a compra de gado de áreas desmatadas ilegalmente. Segundo o MPF, no contexto do TAC da Carne, o percentual de transações com irregularidades caiu de 10,4% no primeiro ciclo de auditorias para 4,8% no quinto. Cinco empresas atingiram 100% de conformidade.
Além disso, o Brasil implementou o monitoramento em tempo real de seus biomas e o uso de inteligência artificial para apoiar a fiscalização. Os bancos têm acesso a plataformas que permitem verificar sanções no CAR e monitoramento via satélite em tempo real para saber se há crimes na propriedade antes de conceder crédito. A partir do próximo ano, essa verificação será obrigatória.
O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, afirmou ao Jornal Nacional que dados técnicos comprovam que o Brasil redobrou a fiscalização e reduziu o desmatamento em todos os biomas, e que essas informações foram apresentadas ao governo americano. “Nós informamos, apresentamos todos os dados. Mostramos a evolução das multas aplicadas, das apreensões realizadas, a queda do desmatamento de forma consistente e permanente, mas nada disso parece ser utilizado da forma correta pelos agentes do governo norte-americano”, disse.



