Aos 56 anos, mulher trans desafia estatísticas e celebra envelhecimento em Juiz de Fora
Aos 56 anos, mulher trans desafia estatísticas em Juiz de Fora

Jade Dias, uma mulher trans de 56 anos nascida em Juiz de Fora, Minas Gerais, tornou-se um símbolo de resistência ao superar a expectativa média de vida da população trans no Brasil, estimada em 35 anos pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). No Dia Internacional do Orgulho LGBT+, celebrado em 28 de junho, sua trajetória expõe as marcas de décadas de invisibilidade e exclusão, mas também a força de quem conseguiu construir um futuro.

Infância marcada pela repressão

Caçula de uma família pobre de 10 irmãos, Jade cresceu nos últimos anos da ditadura militar. Desde os 11 anos, sentia que não se encaixava nas expectativas impostas ao seu corpo. “Quando os meninos tinham que tirar a camisa para a aula de educação física, eu não conseguia. Sentia um arrepio na espinha. Era como se eu estivesse expondo os meus seios”, recordou. Sem referências sobre identidade de gênero, ela se escondeu. “Não se falava de pessoas trans. Era um pecado, uma coisa de outro mundo”, disse.

Em casa e na rua, a regra era clara: “Você tinha que ser homem, e ponto”. A repressão gerou depressão e angústia. “O único jeito de sobreviver era viver dentro do armário. Mas isso me trouxe tristeza profunda e agonia em negar a própria existência”.

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A tentativa de fuga pela religião

Na juventude, Jade encontrou na religião uma proteção. Entrou em um seminário em Juiz de Fora para tentar ser padre. “Pensei que, se fosse padre, ninguém me apontaria na rua. Mas cheguei a um momento em que entendi que não podia viver escondendo quem eu era debaixo de uma batina”. Deixou a formação após aceitar que não conseguiria sustentar a repressão. “Conversei com Deus e entendi que aquilo não era minha vocação”.

Sobrevivência na prostituição e dependência química

Sem oportunidades no mercado formal, Jade recorreu à prostituição. “Quem dava emprego para alguém como eu naquela época?”, questionou. Trabalhou em Juiz de Fora, Rio de Janeiro, São Paulo e viveu por meses na Itália. “Eu fazia programa em um dia para ter o que comer no outro. Não era escolha, era sobrevivência”. Enfrentou também a dependência química. “Bebia muito. As drogas eram uma forma de anestesiar a dor. Não era falta de caráter, era falta de apoio”.

Envelhecimento improvável

Jade nunca pensou no futuro. “Nunca pensei em ficar velha. A gente não via isso acontecer. O desafio era só continuar viva dia após dia”. Aos 56 anos, ela ultrapassou a expectativa de vida da população trans no Brasil, de cerca de 35 anos. O país é o que mais mata pessoas trans e travestis, com 80 assassinatos registrados em 2025.

Transição e reconstrução

Após viajar pelo mundo, voltou a Juiz de Fora para cuidar da mãe com doença degenerativa. Iniciou a transição, buscou apoio psicológico e entrou na fila do SUS para cirurgia de redesignação sexual. A espera durou quase 10 anos, e o procedimento foi realizado em 2017. “O que me completou foi a própria aceitação. A mulher sempre esteve em mim”. No mesmo ano, oficializou o nome Jade. “É o nome de uma pedra preciosa. Talvez não seja a mais valiosa, mas tem valor próprio”.

Referência e legado

Hoje, Jade é líder comunitária no bairro Dom Bosco e referência para jovens LGBT+. “Sinto que me expor ajuda outras pessoas. Preciso contar a própria história”. Depois de décadas de sobrevivência, ela celebra o futuro. “Vivi muitos anos negando quem era. Passei parte da vida sobrevivendo, não vivendo, e agora estou viva e feliz, valeu a pena lutar”.

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