IA transforma contratos em dados para decisões empresariais
IA transforma contratos em dados para decisões

A inteligência artificial está transformando a natureza dos contratos corporativos, convertendo-os de meros documentos arquivados após a assinatura em um banco de dados estruturado. A tecnologia passou a transformá-los em informações úteis sobre clientes, fornecedores, riscos, impostos, preços, reajustes e obrigações, capazes de alimentar decisões empresariais em tempo real. O contrato deixa de registrar o passado para orientar o futuro.

Contratos no centro das decisões

Essa mudança desloca os contratos do território exclusivo do jurídico, tradicionalmente associado à mitigação de riscos e à proteção contra litígios, para o coração das decisões empresariais. A IA, nesse contexto, não substitui o advogado ou o contador, mas oferece a eles um mapa detalhado de tudo o que a empresa já assinou, com implicações diretas para o caixa e para a reputação.

O ganho potencial é expressivo. Pesquisa realizada pela consultoria Deloitte em parceria com a empresa de gerenciamento de documentos Docusign estima que a gestão ineficiente de contratos provoca perdas econômicas de quase US$ 2 trilhões por ano no mundo. No Brasil, empresas com fluxos de trabalho desconectados desperdiçam cerca de 18% do tempo dedicado a processos contratuais.

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Gestão Inteligente de Acordos (IAM)

Não se trata apenas de reduzir burocracia. O objetivo é evitar atrasos, renegociar fornecedores antes do vencimento de contratos, reduzir riscos regulatórios e identificar oportunidades que antes permaneciam "escondidas" em milhares de páginas.

A Gestão Inteligente de Acordos (da sigla em inglês IAM) pretende organizar todo o ciclo de vida dos contratos com uso intensivo de IA. A proposta é que a empresa não tenha mais sistemas isolados em cada área, mas uma base única sobre a qual se constrói um entendimento comum das relações com clientes e fornecedores. "O contrato passa a ser dado e vira insight para a tomada de decisão e mitigação de risco", sintetiza Marcelo Salles, vice-presidente de Vendas da Docusign para a América Latina.

Como a IA opera nos contratos

A tarefa é realizada por modelos de IA treinados especificamente para contratos, capazes de ler rapidamente milhares de páginas e extrair dados relevantes. Gestores podem então pedir, por exemplo, para localizar todos os contratos com determinada cláusula ou fornecedor, e a partir daí acionar fluxos automáticos de atualização e de assinatura. Nas empresas que já trabalham com outros modelos generativos, os dados extraídos dos contratos podem ser cruzados com informações de ERP, CRM e sistemas de projetos.

Segurança da informação em primeiro plano

Entretanto, essa centralização só é aceitável se a segurança da informação estiver em primeiro plano. O risco de vazamento de dados sensíveis, especialmente em uma era em que modelos de IA são treinados com grandes volumes de informação, é legítimo e precisa ser enfrentado com transparência técnica e jurídica. "No sistema, os dados são anonimizados, segundo a política de segurança, além de criptografados", explica Salles.

Impacto da Reforma Tributária

Tudo isso fica ainda mais importante diante da Reforma Tributária. Ela está exigindo que grandes empresas revisem milhares de contratos para adaptar cláusulas, impostos, bonificações e regras comerciais. Esse trabalho, inviável de ser feito manualmente, é fortemente beneficiado pela IA. Ainda assim, a interpretação tributária continua sendo responsabilidade das empresas e de seus especialistas.

Evolução da assinatura eletrônica

Essa revolução representa o amadurecimento natural dos sistemas de assinatura eletrônica, cujo alicerce no país veio com a criação do ICP-Brasil, a infraestrutura nacional de certificação digital, que completará 25 anos no dia 24 de agosto. Naquela época, o grande desafio era convencer empresas e cidadãos de que uma assinatura eletrônica poderia ter o mesmo valor legal de uma assinatura em papel.

Curiosamente, o verdadeiro acelerador dessa mudança não foi uma lei, mas a pandemia de Covid-19, que eliminou a resistência cultural que ainda existia em torno da assinatura eletrônica. "A pandemia tirou qualquer dúvida que existia sobre esse modelo", lembra Salles.

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Entusiasmo com cautela

Essa mudança merece entusiasmo, mas também cautela. Quanto mais decisões forem tomadas por sistemas capazes de interpretar contratos, maior será a necessidade de transparência, governança e supervisão humana.

A inteligência artificial pode libertar profissionais de tarefas repetitivas e revelar oportunidades invisíveis, mas não elimina o julgamento humano sobre aquilo que deve ser negociado, aceito ou recusado. Caberá às empresas garantir que essa nova inteligência permaneça a serviço das pessoas, e não apenas da eficiência.