IA gera vídeos históricos falsos e especialistas alertam
IA gera vídeos históricos falsos e especialistas alertam

A proliferação de vídeos históricos fabricados por inteligência artificial (IA) preocupa especialistas. Imagens que simulam câmeras de vigilância do desastre nuclear de Chernobyl, em 1986, ou que reencenam o hasteamento da bandeira dos Estados Unidos em Iwo Jima, na Segunda Guerra Mundial, circulam nas redes sociais sem marca d’água ou com avisos discretos. Para o pesquisador de mídia Roland Meyer, a tendência reflete um desejo de preencher “lacunas” nos arquivos, mas ele a classifica como uma “promessa enganosa”.

Como identificar vídeos gerados por IA

O fato de muitos conteúdos gerados por IA serem facilmente reconhecidos — por marcas d’água, avisos em plataformas ou notas da comunidade no X — não elimina o problema. As ferramentas de inteligência artificial evoluem constantemente, e os vídeos sintéticos tornam-se cada vez mais sofisticados, muitas vezes com as marcas d’água removidas. Segundo a equipe de checagem de fatos da DW, uma análise crítica das imagens permanece essencial.

Alguns cases são óbvios, como vídeos que retratam épocas anteriores à invenção da câmera. Um exemplo é o vídeo do TikTok que mostra Pompeia antes, durante e depois da erupção do Vesúvio, em 79 d.C. No YouTube, o conteúdo já aparece identificado como gerado por IA. Os personagens se movem de forma robótica, e a protagonista tem uma aparência anacrônica, distante do visual típico das mulheres da Roma Antiga.

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Falsificações de momentos icônicos

Quando o evento é mais recente, a falsificação pode enganar com mais facilidade. Um vídeo publicado no X, supostamente gravado por câmeras de vigilância na usina de Chernobyl em 1986, foi gerado por IA. Apesar de não ter marca d’água, as notas da comunidade abaixo da publicação indicaram que se tratava de conteúdo sintético.

Outro exemplo vem do YouTube: um vídeo produzido com a ferramenta de IA generativa Veo recria o momento em que soldados americanos hasteiam a bandeira dos Estados Unidos na ilha de Iwo Jima, durante a Segunda Guerra Mundial. A câmera se aproxima dos rostos dos militares, que olham para o horizonte. A obra se baseia na famosa fotografia de Joe Rosenthal, tirada em 23 de fevereiro de 1945, um dos registros mais emblemáticos do conflito. A imagem autêntica está nos Arquivos Nacionais dos Estados Unidos.

A conta que publicou o vídeo promete “histórias patrióticas” e afirma oferecer “conteúdo informativo e de entretenimento que dá vida à história dos Estados Unidos”. Apesar disso, a cena filmada na época por cinegrafistas era estática, sem o ângulo dramático apresentado pela versão de IA.

IA no lugar de fontes reais?

O vídeo de Iwo Jima usa um acontecimento real, mas insere detalhes e perspectivas jamais documentados. Para o historiador Jürgen Zimmerer, esse tipo de reconstrução elimina outras interpretações possíveis. “Com cada interpretação de uma determinada cena são eliminadas outras possíveis interpretações e representações, que também existem”, afirma. Ele defende que os espectadores reconheçam quando estão diante de um vídeo “histórico” gerado por IA e mantenham distanciamento crítico.

O problema ganha outra dimensão quando há risco de as imagens sintéticas substituírem documentos autênticos, especialmente em períodos como a Segunda Guerra Mundial. Roland Meyer observa que as peças de IA são adaptadas às expectativas do público e aos hábitos visuais contemporâneos.

Clichês e estereótipos

Os modelos de IA são treinados com um vasto conjunto de dados, incluindo fotografias históricas, pinturas digitalizadas, cenas de filmes e imagens de videogames. Por isso, as representações do passado produzidas por máquinas reproduzem principalmente padrões, clichês e estereótipos. “Não são uma janela para o passado, mas um espelho do nosso presente”, define Meyer.

Há ainda a questão da responsabilidade. Diferentemente de reconstituições feitas para documentários, em que diretores e produtores tomam decisões conscientes sobre como retratar a história, as imagens de IA são geradas por algoritmos que não compreendem contextos históricos. “Ela produz algo que parece plausível, à primeira vista, não porque seja historicamente correto, mas porque corresponde às nossas expectativas”, explica o pesquisador.

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Um uso positivo da IA

Apesar das controvérsias, há casos em que a IA é usada de forma colaborativa com especialistas. Em Pompeia, na Itália, arqueólogos usaram inteligência artificial para reconstruir a aparência de uma vítima da erupção de 79 d.C. A representação, baseada em descobertas arqueológicas, busca aproximar o público da pesquisa científica e é apresentada como reconstrução científica, não como imagem autêntica da pessoa.

Esse exemplo demonstra que a IA pode ajudar a contar a história, desde que usada com transparência e supervisão de especialistas. O desafio, segundo os pesquisadores, é fazer com que o público desenvolva um olhar crítico diante de imagens que pretendem mostrar o passado.