Moonshot AI lança Kimi K3 e desafia hegemonia dos EUA com modelo mais barato
Moonshot AI lança Kimi K3 e desafia hegemonia dos EUA

A startup chinesa Moonshot AI, sediada em Pequim, lançou na quinta-feira o Kimi K3, a versão mais recente de seu modelo de linguagem de grande porte. O modelo promete desempenho próximo ao do Fable 5, da Anthropic — considerado o modelo publicamente disponível mais poderoso atualmente — por uma fração do custo.

Desempenho competitivo e benchmarks

O Kimi K3, o maior modelo de pesos abertos já lançado, apresentou desempenho “competitivo” com o Fable 5 e “superou substancialmente” o Opus 4.8, da Anthropic, e o GPT 5.6 Sol, da OpenAI, segundo a Moonshot. Os benchmarks oficiais colocam o K3 consistentemente entre os três melhores modelos de IA. Um benchmark independente da Arena.AI chegou a apontar o K3 como o melhor modelo atualmente disponível, à frente da Anthropic.

Muitos observadores, incluindo o CEO da Anthropic, Dario Amodei, não esperavam que um laboratório chinês lançasse um modelo capaz de se aproximar das melhores ofertas dos EUA por pelo menos mais seis meses. O CEO da Tesla, Elon Musk, sugeriu que isso talvez acontecesse apenas no primeiro trimestre do ano que vem. O lançamento do K3 encurtou rapidamente esse prazo, destacando a velocidade com que os desenvolvedores chineses estão reduzindo a diferença de desempenho em relação aos rivais americanos.

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Impacto no mercado de semicondutores

“O ecossistema de IA na China provavelmente é muito melhor do que as pessoas imaginavam”, diz Paul Triolo, sócio da DGA-Albright Stonebridge Group.

A Moonshot AI definiu o preço do K3 em US$ 15 por milhão de tokens de saída, contra US$ 50 do Fable 5. O lançamento abalou investidores que acreditavam que empresas dos EUA manteriam sua liderança gastando mais em poder computacional.

Uma liquidação no setor de semicondutores já estava em andamento, mas a estreia do K3 piorou a situação. A Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) caiu 7% na sexta-feira, apesar de reportar um salto de 77% no lucro operacional trimestral. O SoftBank caiu 9,0%. A z.ai, startup chinesa que lançou um modelo concorrente, despencou quase 30% em Hong Kong. O Nasdaq 100 caiu 1,0%, a Nvidia perdeu 1,2% e a Meta recuou mais de 2,4%.

O cenário da IA na China

O setor de IA da China inclui gigantes como Alibaba e ByteDance, startups como DeepSeek, MiniMax e z.ai, além de empresas como Xiaomi e Meituan. A Moonshot AI, fundada em 2023, tem apoio de Alibaba, Tencent, Meituan e HSG (antiga Sequoia China). A empresa considera abrir capital em Hong Kong.

Esta é a segunda vez que a Moonshot ganha destaque neste ano. Modelos anteriores, como o K2.5 e K2.6, ganharam tração no Vale do Silício por oferecerem forte desempenho em programação a custo menor que o Claude, da Anthropic. Em março, a fabricante americana Cursor reconheceu que seu agente Composer 2 rodava sobre o Kimi 2.5.

Agora, a Moonshot assume a liderança da IA na China, posição que mudou de mãos repetidamente. Em abril, a DeepSeek revelou o V4, que oferece desempenho de fronteira a preços baixíssimos — US$ 0,87 por milhão de tokens de saída — e capacidade de rodar em processadores da Huawei. Em meados de junho, a z.ai lançou o GLM-5.2, poucos dias após autoridades americanas terem interrompido brevemente o acesso aos modelos da Anthropic para alguns usuários fora dos EUA.

“A inteligência de fronteira não deve pertencer apenas a algumas poucas pessoas, nem estar sujeita à retirada por um punhado de regras a qualquer momento”, escreveu a z.ai em uma publicação nas redes sociais.

Por que os modelos chineses são mais baratos?

A IA chinesa é sistematicamente mais barata que a concorrência americana. O DoorDash, por exemplo, direciona “trabalhos de nível mais básico” para o Kimi, gerando “melhor qualidade e menor custo”, segundo o diretor de tecnologia Andy Fang. Os sistemas chineses dominam os rankings semanais do OpenRouter — nesta semana, todos os cinco modelos mais usados são de empresas chinesas: Tencent, Xiaomi, DeepSeek, MiniMax e z.ai.

Os custos de energia na China são menores, em parte devido a investimentos massivos em geração e transmissão. Já novos data centers nos EUA enfrentam resistência política devido à pressão sobre as redes elétricas e uso de água. As empresas chinesas também sacrificam margens de lucro para capturar participação de mercado.

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Ironicamente, os controles de exportação dos EUA — projetados para frear o setor de IA chinês — podem ser um fator por trás dos preços baixos. Sem acesso aos processadores mais poderosos, os laboratórios chineses foram forçados a extrair mais desempenho de hardwares menos capazes. “Os laboratórios estão tão limitados em computação, capital e talentos que muitos estão sendo cautelosos na forma como usam seus recursos”, diz Grace Shao, analista de IA e autora da newsletter AI Proem.

A maioria dos modelos chineses mais recentes é compatível com processadores locais mais baratos. “Pelo dinheiro que [uma empresa chinesa de IA] gastaria em um chip da Nvidia, ela pode comprar dez chips locais da Huawei ou de outros fabricantes chineses”, diz George Chen, sócio da Asia Group.

Open source e código aberto

As empresas chinesas adotaram o movimento open source, liberando seus modelos gratuitamente. Quase todas as empresas chinesas lançam seu trabalho sob licenças que permitem download, execução em hardware local e ajustes. Isso permite que provedores terceirizados, inclusive nos EUA, hospedem modelos chineses gratuitamente. “Os únicos custos relevantes são GPUs e energia”, diz Ameya Karnitkar, cofundador da Larridin. “A Anthropic acrescenta os custos adicionais de P&D e seus próprios custos de inferência.”

Em 17 de julho, na Conferência Mundial de Inteligência Artificial em Xangai, o presidente chinês Xi Jinping reafirmou o compromisso do país com o código aberto. “Devemos aproveitar essa rara oportunidade histórica, incentivar código aberto, abertura, cooperação e compartilhamento”, disse Xi. Ele também criticou Washington por tentar impor controles sobre a divulgação de modelos de fronteira: “Devemos nos opor conjuntamente à prática de expandir excessivamente o conceito de segurança nacional no campo da IA ou de colocar a segurança de um país acima da segurança dos demais.”