As recentes decisões do governo americano de restringir o acesso aos modelos mais poderosos de inteligência artificial mostram que a IA se tornou um ativo estratégico, capaz de desequilibrar a competitividade e o desenvolvimento de pessoas, empresas e até países. Mas existe uma desigualdade muito menos debatida e talvez tão importante quanto essa, que é a divisão entre quem a usará para ampliar o pensamento e quem a utilizará para substituí-lo.
O problema da substituição do pensamento
O problema surge quando passamos a recorrer a essa tecnologia para atividades em que ela pouco acrescenta. Esse movimento tende a se acelerar com a popularização dos agentes de IA. Até então, convivíamos principalmente com sistemas que aguardavam nossas perguntas para responder. Agora, os agentes tomam iniciativas, executam processos, negociam entre si, contratam serviços e concluem tarefas, com mínima intervenção humana.
Isso representa um enorme ganho de produtividade, mas desloca o aspecto essencial do nosso trabalho de conferir se aquilo que foi feito realmente faz sentido. Por isso, talvez tão perigoso quanto a IA errar seja ela acertar demais. Erros nos obrigam a revisar resultados, mas acertos em série podem nos convencer a deixar de analisar suas conclusões.
Lições da ficção científica
A ficção científica antecipou esse dilema muito antes de a IA generativa existir. Já em 1968, "2001: Uma Odisseia no Espaço" mostrou como a confiança excessiva da tripulação da nave Discovery One no computador HAL 9000 teve consequências trágicas. Quatro décadas depois, a animação "WALL-E" mostrou humanos de outra nave, a Axiom, dominados por robôs cordiais, simplesmente porque se acostumaram a viver sem decidir quase nada, com máquinas administrando cada aspecto de sua rotina.
Estamos potencialmente começando a construir algo parecido, não por imposição tecnológica, mas por uma conveniência deslumbrada.
O novo abismo social
Tudo isso nos traz de volta à tese central deste debate. Estamos depositando enorme atenção a quem terá acesso à melhor inteligência artificial, mas estamos ignorando quem será capaz de continuar exercitando e ampliando suas capacidades, diante de uma tecnologia que "gentilmente" quer assumir tudo.
Se a sociedade não levar esse fenômeno a sério, em pouco tempo, poderemos ver pessoas com acesso às mesmas ferramentas desenvolvendo trajetórias completamente diferentes. Umas adotarão a IA para investigar mais, testar hipóteses, ampliar repertório e tomar decisões melhores; outras recorrerão às máquinas antes mesmo de formular seus próprios raciocínios.
Todas parecerão igualmente produtivas por algum tempo, mas apenas o primeiro grupo continuará desenvolvendo a capacidade de pensar de forma independente. Em médio prazo, isso pode criar um novo tipo de abismo social.
O papel das instituições
Se empresas, escolas e outras instituições passarem a valorizar apenas a produtividade imediata, poderão ampliar essa desigualdade entre aqueles que preservam o pensamento crítico e aqueles que, aos poucos, deixam de exercê-lo porque a tecnologia assumiu a tarefa.
Eu não acredito em um "apocalipse das máquinas" com uma revolta armada dos robôs. Mas começo a me preocupar que nós mesmos, graciosamente, nos submetamos a eles ao desaprendermos a viver sem seu apoio contínuo. E uma das consequências mais nefastas disso será deixarmos de considerar necessário decidir.



