Há 12 anos, o então estudante de física Rodrigo Raffa percebeu a escassez de informações sobre astronomia em português na internet. Decidiu criar um espaço para compartilhar conhecimento e aproximar interessados no tema. Assim nasceu o Clube de Astronomia Centauri, em Itapetininga (SP), hoje comandado pelo professor de física Rodrigo Raffa.
Início modesto e crescimento
"Na educação básica, eu não tive tantas oportunidades de me aprofundar na astronomia. Fui conhecer essa ciência de verdade na faculdade. Quanto mais eu aprendia, mais percebia que existiam poucas informações disponíveis, principalmente em português. Na época, quase tudo era em inglês, desde conteúdos até informações sobre telescópios e aplicativos", conta Rodrigo ao g1.
A iniciativa começou de forma simples, reunindo amigos com o mesmo interesse. Para alcançar mais pessoas, Rodrigo criou uma página no Facebook. "Eu queria formar uma comunidade. Primeiro comecei divulgando informações e convidando as pessoas para participarem. A ideia era criar um clube que reunisse quem gostava de astronomia."
O nome foi inspirado nas aulas da graduação. "Lembro que estudávamos muito a estrela Proxima Centauri, a mais próxima do nosso Sistema Solar. Aquele nome me cativou, que é referente à constelação do Centauro, que também faz parte de um sistema estelar que tem três estrelas juntos, que é Alpha Centauri. Foi o primeiro e único nome que eu pensei", relembra.
Equipe e ciência cidadã
Atualmente, a equipe inclui a esposa de Rodrigo, Isabela Almeida; Bruno Rogério Morais, servidor do Instituto Federal; Marco Centurion, mestrando em uma universidade de São Petersburgo, na Rússia; e o professor Lester Faria, doutor em engenharia aeroespacial pelo ITA, que atua como mentor. Além da equipe organizadora, o Centauri reúne entre 60 e 80 participantes que colaboram com observações do céu, prática que Rodrigo chama de "ciência cidadã".
"A ciência cidadã acontece quando as pessoas registram um fenômeno e compartilham esse material com universidades, instituições de pesquisa ou clubes como o nosso. O céu do Brasil é muito grande e não temos equipamentos funcionando 24 horas por dia em todos os lugares. Esses registros são fundamentais para que possamos analisar o que aconteceu", explica.
Rodrigo destaca que a equipe utiliza critérios científicos para analisar cada imagem recebida e esclarecer que nem toda "luz diferente" observada no céu representa algo incomum. "Nem tudo é alarmante. Muitas vezes conseguimos identificar que se trata de um meteoro, da passagem de um satélite, da Estação Espacial Internacional, de um planeta ou até de um fenômeno atmosférico. Nem sempre temos todas as respostas, mas fazemos essa análise com um olhar científico e mais criterioso."
Reconhecimento da Nasa
Em 2021, os integrantes do Centauri receberam um certificado da Nasa por meio do programa Night Sky Network. Segundo o clube, os membros foram responsáveis por publicações, divulgações e traduções de artigos astronômicos enviados pela agência.
O céu de Itapetininga
A localização de Itapetininga foi um fator motivador. Por estar distante dos grandes centros urbanos, a cidade sofre menos com poluição luminosa. "Itapetininga tem um céu de interior. Estamos afastados de cidades como Sorocaba, Campinas e São Paulo, que sofrem mais com a poluição luminosa. Aqui ainda conseguimos apreciar boa parte das estrelas e de outros objetos celestes", afirma Rodrigo.
Além disso, a cidade está próxima ao Trópico de Capricórnio, o que proporciona boas condições para observar fenômenos astronômicos. "Embora o céu seja o mesmo para todos, existem diferenças de acordo com a latitude. Em regiões próximas aos polos, por exemplo, há épocas em que o sol permanece muito baixo no horizonte ou sequer aparece durante vários dias. Aqui, por estarmos próximos ao Trópico de Capricórnio, conseguimos observar muitos fenômenos em ótimas condições", explica.
Calendário astronômico e precisão
O clube produz um calendário mensal com os principais fenômenos visíveis na região, que faz parte de um e-book oferecido a quem contribui financeiramente com o projeto. Para elaborar a programação, a equipe consulta anuários da Nasa e da ESA e utiliza o software Stellarium para simular a posição dos astros conforme a data, horário e localização de Itapetininga.
"Nós verificamos se o fenômeno realmente será visível daqui, qual será o melhor horário e a intensidade do brilho. Só depois de confirmar todas essas informações fazemos a divulgação. Muitas vezes os seguidores comentam que observaram exatamente no horário que indicamos, e isso mostra a precisão do nosso trabalho", afirma Rodrigo. Foi assim que o clube divulgou a conjunção entre lua, Vênus, Júpiter e Mercúrio em 17 de junho, que chamou a atenção em todo o Brasil.
Investimento em ciência
Rodrigo avalia que o interior paulista ainda carece de investimentos em infraestrutura científica. "Em Sorocaba existe um observatório didático, voltado à popularização da astronomia, mas não é um observatório profissional. O mais próximo da nossa região é o Observatório Abrahão de Moraes, da USP, em Valinhos, que conta com equipamentos de alta precisão."
O professor explica que a construção e manutenção de um observatório profissional exigem investimentos elevados. "Os telescópios que utilizamos no clube são considerados de entrada e custam, em média, R$ 10 mil. Um observatório profissional envolve equipamentos muito mais sofisticados, infraestrutura e mão de obra especializada. O investimento chega à casa dos milhões de reais."
Para Rodrigo, antes de ampliar o número de observatórios, é importante investir em espaços voltados à educação e à formação de novos pesquisadores. "Precisamos incentivar as crianças e os jovens a seguirem carreiras científicas. Também é importante mostrar que a ciência é um espaço para as meninas e mulheres. A pesquisa de base é o que torna possível o avanço da engenharia e da tecnologia."
O céu como laboratório
"O mais legal da astronomia é que o laboratório é o céu. Então você olha para cima, em um dia em que as estrelas estão ali todas cintilando, você já pode, de alguma forma, contribuir com a ciência. Seja tirando uma foto, seja observando um registro e relatando por escrito", destaca o físico.
Ele aponta que a possibilidade de qualquer pessoa identificar corpos celestes, mesmo sem conhecimentos aprofundados, é gratificante. "Você pode usar a câmera do celular para fotografar o céu e saber que está vendo a lua, Júpiter ou Mercúrio. É algo sensacional reconhecer o que está observando. Vejo esse trabalho como uma extensão da minha carreira como professor. Não ensinamos apenas a teoria, mas também despertamos a curiosidade e, quem sabe, inspiramos novas carreiras", finaliza.
Evento de Asteroid Day
Para celebrar o Asteroid Day (Dia Internacional dos Asteroides) em 30 de junho, o Clube de Astronomia Centauri promoverá, em 1º de julho, um evento gratuito e aberto ao público no Instituto Federal de São Paulo (IFSP) – Campus Itapetininga, na Avenida João Olímpio de Oliveira, 1.561, na Vila Asem. A programação terá como tema central a defesa planetária, área dedicada à detecção, monitoramento e estudo de asteroides e outros corpos celestes que podem se aproximar da Terra. Os participantes também conhecerão mais sobre os centauros, objetos do Sistema Solar com características de asteroides e cometas que orbitam entre Júpiter e Netuno. O evento começa às 18h com palestra de Rodrigo Raffa, e às 20h haverá sessão de observação do céu, se o clima permitir.



