Um estudo recente, conduzido por pesquisadores da Universidade de Chicago e do Field Museum, explica por que as pessoas deixaram de enterrar seus familiares dentro de casa. A prática, comum em várias civilizações antigas, desapareceu gradualmente ao longo dos séculos, e a pesquisa aponta a influência das grandes religiões como um dos principais fatores para essa mudança.
Prática ancestral generalizada
De acordo com o estudo, enterrar os mortos sob o chão das residências era uma tradição em diversas culturas ao redor do mundo, desde a Mesopotâmia até as Américas pré-colombianas. A arqueóloga Linda M. Nicholas, do Field Museum, coautora da pesquisa, explica que o costume estava ligado à crença de que os ancestrais continuavam fazendo parte do lar e protegendo a família. “Era uma forma de manter os laços com os entes queridos mesmo após a morte”, afirma Nicholas em comunicado à imprensa.
Os arqueólogos analisaram sítios funerários em regiões como o atual México, o Oriente Médio e a Europa, identificando sepulturas domésticas que datam de até 10 mil anos atrás. A prática era particularmente comum em sociedades agrícolas, onde as casas eram construídas sobre os restos de gerações passadas.
Papel das religiões organizadas
A pesquisa destaca que o declínio dos enterros domésticos coincidiu com a ascensão das grandes religiões monoteístas, especialmente o cristianismo e o islamismo, a partir do primeiro milênio da era comum. Essas religiões introduziram a ideia de espaços sagrados dedicados exclusivamente aos mortos, como cemitérios e igrejas. “A noção de que os mortos deveriam ser sepultados em solo consagrado, longe das áreas residenciais, foi um divisor de águas”, explica a equipe no artigo publicado na revista Antiquity.
Além disso, o estudo aponta que as autoridades religiosas passaram a desencorajar o enterro doméstico por considerá-lo uma prática pagã ou associada a superstições. Na Europa medieval, a Igreja Católica chegou a proibir que corpos fossem enterrados dentro de casas, exigindo que todos os sepultamentos ocorressem em cemitérios paroquiais. No mundo islâmico, a tradição de enterrar os mortos em cemitérios comunitários também se consolidou rapidamente.
Mudanças culturais e urbanização
O estudo também aponta que o crescimento das cidades e a urbanização contribuíram para o fim da prática. Com o aumento da densidade populacional, enterrar corpos dentro de casa tornou-se insalubre e impraticável. “As questões sanitárias e de espaço foram fatores importantes, mas as crenças religiosas foram o motor principal”, afirma Linda M. Nicholas.
Em algumas regiões, como partes da Amazônia e da África subsaariana, o enterro doméstico persistiu até o século XX, mas hoje é extremamente raro. A pesquisa conclui que a prática desapareceu porque as sociedades adotaram novas visões sobre a morte e o além, moldadas pelas religiões predominantes.
Legado arqueológico
Embora o enterro doméstico não seja mais praticado, seu legado permanece nos registros arqueológicos. Os pesquisadores ressaltam que esses sepultamentos fornecem informações valiosas sobre as crenças, a estrutura familiar e as relações sociais das civilizações antigas. “Cada esqueleto encontrado sob uma casa conta uma história de intimidade e continuidade”, finaliza Nicholas.



