Uma fotografia enviada por um morador do interior do Ceará foi o ponto de partida para a descoberta de uma nova espécie de peixe das nuvens na Caatinga. O registro, compartilhado pelo perfil Peixes da Caatinga, levou pesquisadores até uma pequena lagoa temporária no município de Penaforte, onde foi encontrada uma população desconhecida do gênero Cynolebias.
O peixe recebeu o nome científico de Cynolebias penaforte, em homenagem à cidade onde vive. Segundo o pesquisador Telton P. A. Ramos, autor do estudo, a possibilidade de existir um peixe desse grupo na região chamou atenção desde o primeiro contato.
Da dúvida à certeza: a descoberta
"Os peixes das nuvens são relativamente raros. Desde que o farmacêutico Kayque falou da possível existência de uma espécie desse grupo na cidade dele, isso já me chamou atenção, porque, pelas minhas pesquisas na Caatinga, não havia nenhum registro desse grupo de peixes na região de Penaforte", conta Ramos. No início, o pesquisador admite que ficou desconfiado. Kayque dizia que brincava com aqueles peixes desde a infância, parecidos com os que apareciam nas publicações do projeto. Mas bastou receber a fotografia para perceber que poderia estar diante de algo inédito.
"Confesso que duvidei. Mas quando ele mandou a imagem, me surpreendi. Já começamos a pensar que poderia ser uma espécie nova, porque os peixes das nuvens geralmente possuem distribuição extremamente restrita, muitas vezes limitada a poucos quilômetros", lembra Telton.
Corrida contra o tempo e mobilização popular
A descoberta quase não aconteceu. Quando a fotografia chegou aos pesquisadores, o período chuvoso no semiárido estava terminando e as lagoas temporárias começavam a secar. Era preciso viajar imediatamente até Penaforte, distante cerca de 600 quilômetros da base da equipe. Sem dinheiro para custear a expedição, Telton contou a história nas redes sociais do projeto Peixes da Caatinga. A solução veio da própria comunidade de seguidores, que organizou uma campanha de arrecadação.
"O dinheiro veio dos seguidores e também de integrantes do PAN de Rivulídeos. Não conseguimos arrecadar o suficiente para alugar um carro, então fomos na minha caminhonete, conhecida pelos seguidores como Siriguela", explica.
Lagoa quase seca e esforço de moradores
Quando a equipe finalmente chegou ao destino, encontrou um cenário preocupante. "A lagoa já estava quase seca. Antes da nossa chegada, o pai do Kayque precisou jogar baldes de água para manter aquele ambiente até conseguirmos chegar", relata o pesquisador. Mesmo assim, apenas alguns poucos exemplares ainda sobreviviam. "Eles já estavam bem magros e com as nadadeiras danificadas. Toda essa luta para encontrar a espécie mostra também a falta de recursos para desenvolver pesquisas na Caatinga", completa.
Um verdadeiro jogo dos sete erros
À primeira vista, as espécies do gênero Cynolebias são muito parecidas. Descobrir se um exemplar representa uma espécie inédita exige um trabalho detalhado de comparação. "As diferenças vão aparecendo aos poucos para um taxonomista experiente. Nesse caso, o padrão de coloração, a contagem de raios das nadadeiras e vários outros caracteres mostraram que estávamos diante de uma espécie nova", afirma Ramos.
Além da análise morfológica, os pesquisadores recorreram à genética, que confirmou o resultado. Os exemplares coletados seguiram para duas universidades federais: a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) realizou as análises morfológicas, enquanto a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) fez o sequenciamento molecular.
Caatinga ainda guarda surpresas
Para Telton Ramos, a descoberta reforça que a Caatinga ainda é muito subestimada quando o assunto é biodiversidade. "Infelizmente, ainda existe a ideia de que a Caatinga é pobre em biodiversidade. Mas isso está completamente errado", afirma.
Nos últimos três anos, somente a equipe do Instituto Peixes da Caatinga encontrou mais de dez novas espécies de peixes das nuvens. Seis delas já foram descritas oficialmente, três apenas neste ano, e outras ainda estão em fase de estudo. "Isso mostra que ainda temos muito a conhecer, principalmente nos ambientes temporários, que costumam ser negligenciados por muitos pesquisadores".
Espécie já nasce ameaçada
Apesar da descoberta, a situação do Cynolebias penaforte preocupa. Até agora, a espécie foi encontrada apenas em uma única poça temporária às margens da BR-116. Durante o estudo, os pesquisadores souberam que o local quase foi completamente aterrado antes mesmo da descoberta do peixe. "A lagoa já foi parcialmente aterrada", conta Telton. A equipe realizou buscas rápidas em outras lagoas temporárias da região, mas não encontrou novos indivíduos.
Por isso, além de homenagear o município, os pesquisadores esperam que o nome da espécie desperte um sentimento de pertencimento entre os moradores. "Decidimos colocar o nome de Penaforte justamente para que a população abrace essa espécie, ajude na conservação e monitore a poça", diz Ramos.
Agora, o principal desafio é conseguir recursos para ampliar as expedições e descobrir se existem outras populações da espécie. "Um dos nossos maiores problemas hoje é a falta de um carro para as expedições. Precisamos continuar procurando novos locais e entender melhor a distribuição desse peixe antes que seja tarde demais", conclui o pesquisador.



