Estudantes, profissionais do mercado financeiro e da indústria de software costumam tomar medicamentos psiquiátricos usados para tratar transtornos como o déficit de atenção (TDHA), acreditando que esses remédios aumentam concentração, produtividade e criatividade. Uma pesquisa com 6.500 estudantes universitários norte-americanos revelou que 14% deles utilizam essas drogas, já chamadas de estimulantes cerebrais.
Drogas comuns e seus efeitos
Entre as drogas mais utilizadas estão a dextroamphetamina (Adderall), o methylphenidato (Ritalina) e o modafinil (Provigil). Elas ajudam pacientes com síndromes como o TDHA, mas seu efeito como estimulante mental nunca havia sido investigado diretamente. Agora, um estudo duplo-cego com 40 voluntários saudáveis trouxe resultados preocupantes.
Os voluntários foram ao laboratório quatro vezes ao longo de um mês. Por sorteio, foram divididos em 4 grupos de 10 pessoas. Na primeira visita, um grupo recebeu placebo, outro Adderall, o terceiro Ritalina e o quarto Provigil, nas doses máximas recomendadas nas bulas. Nem os voluntários nem os cientistas sabiam o que cada pessoa ingeria. Nas outras visitas, houve rotação dos medicamentos, de modo que todos receberam os quatro tratamentos.
O teste da mochila
Após o período de efeito das drogas, os voluntários foram desafiados a resolver o problema da mochila: com uma mochila de volume fixo (30 litros) e uma coleção de objetos com volumes e valores distintos, deveriam escolher a combinação que maximizasse o valor total, em 4 minutos. Cada movimento foi filmado, permitindo analisar não só o resultado final, mas o processo de resolução.
Os resultados mostraram que, sob efeito das três drogas, o esforço aumentou: os voluntários gastaram mais tempo e fizeram mais tentativas, trocando objetos com mais frequência. No entanto, as trocas ocorreram de maneira menos organizada, indicando tentativa e erro. Apesar do maior esforço, o valor obtido nas mochilas foi significativamente menor do que sob placebo.
Esforço maior, resultado pior
Segundo o estudo, as drogas diminuíram a capacidade de resolver o problema de forma eficiente. "Tudo indica que sob o efeito das drogas as pessoas trabalham mais, mas de maneira menos inteligente", afirmam os pesquisadores. O aumento de esforço não compensou a piora na qualidade das soluções.
O experimento demonstra que o uso dessas drogas reduz a capacidade intelectual. Mas por que as pessoas continuam usando? Uma possível explicação é a percepção subjetiva de maior dedicação, o que o experimento confirmou. Porém, esse esforço ocorre sob condições de capacidade cerebral reduzida, levando a soluções de menor qualidade.
Implicações e autoengano
Se o resultado for replicado com outros problemas, fica demonstrado que tomar esses remédios para estudar ou trabalhar é uma forma de autoengano: você tem a impressão de trabalhar mais, mas seu desempenho é pior. O estudo, intitulado "Not so smart? 'Smart' drugs increase the level but decrease the quality of cognitive effort", foi publicado na Science Advances.



