Jeff Blackburn, CEO do Tennis Channel, enxerga o gratuito não como um problema, mas como um estágio inicial no ecossistema esportivo. Em entrevista ao Deadline, ele descreve o Tennis Channel 2 (T2), canal FAST, como uma 'rede própria adotada pela TV a cabo' e uma espécie de 'Spotify gratuito'. O T2 funciona como porta de entrada, onde o usuário consome conteúdo introdutório, não necessariamente o melhor das partidas, mas o suficiente para engajar e migrar para plataformas pagas.
Estratégia de funil e ecossistema
Blackburn, ex-Amazon e responsável por estruturar o Prime Video e Amazon Studios, aplica a lógica de reduzir atrito e ampliar exposição. 'Queremos estar em todos os lugares', afirmou, com o objetivo de 'jogar o tênis na frente de todos'. O T2 perde a função de subproduto e ganha status de rede paralela, incorporando um canal gratuito com anúncios que serve como topo de funil. Blackburn garante que o fã 'começará com T2 e vai pensar: eu amo tanto essa tonelada de coisas', referindo-se às propriedades da plataforma, incluindo a Associação de Tênis Feminino (WTA).
WTA e a entrada da CazéTV
A partir de 2027, a WTA adicionará a CazéTV ao seu mapa de distribuição. Essa entrada desafia o discurso de que o gratuito é apenas uma camada preliminar. Há um ano, a renovação da WTA com o Tennis Channel garantiu 2.000 partidas por temporada até 2032 nos EUA, com 'aumento relevante nos pagamentos', segundo Blackburn, contribuindo para receitas comerciais de US$ 142,6 milhões em 2025. Sob gestão da WTA Ventures, com investimento de US$ 150 milhões da CVC Capital Partners em 2023, a liga feminina viu crescimento de 24% nas receitas comerciais no primeiro ciclo pós-parceria. A audiência global atingiu 1,1 bilhão de espectadores em 2024, alta de 10%, com o WTA Finals alcançando 78 milhões e aumentos de 23% na Itália, Espanha e América Latina.
Fragmentação e modelo híbrido do Tennis Channel
Apesar do crescimento, a distribuição segue fragmentada: Sky Sports no Reino Unido, Tennis Channel na Espanha, beIN Sports na França e DAZN em múltiplos mercados. A estratégia de crescimento é uma resposta defensiva à perda contínua da TV paga e à fragmentação dos direitos esportivos. O Tennis Channel foi adquirido em 2016 por US$ 350 milhões e hoje opera em três camadas: TV a cabo, streaming pago (US$ 9,99/mês ou US$ 109,99/ano) e o T2 gratuito. A CNBC reportou que a Sinclair, controladora, considerou vender a rede no ano passado, mas recuou ao reposicioná-la como ativo estratégico no ecossistema de streaming e publicidade esportiva.
CazéTV: gratuito como ambiente principal
Em seis meses, a CazéTV substituirá a ESPN na transmissão da WTA na América Latina, segundo Flavio Ricco. A troca deflagra um deslocamento de modelo: de direitos pagos e distribuição controlada para um formato no YouTube, gratuito, com comunidade ativa e descoberta por algoritmo. A CazéTV já testou esse modelo no futebol e em eventos como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos de Paris. O ponto não é romantizar o 'grátis', mas entender que ele redefine a entrada no sistema. Enquanto o Tennis Channel trata o gratuito como degustação, a CazéTV o redefine como ambiente principal de consumo, sem depender de conversão para o cabo.
O vazio entre 2026 e 2027
O contrato da WTA com a DAZN, assinado em 2014 por cerca de US$ 525 milhões em 10 anos, vence no fim deste ano, abrindo espaço para novos parceiros ou internalização da distribuição digital. Como aponta o The Athletic, a prática de limitar acesso pode reduzir descoberta e consumo recorrente. O fim desse ciclo levanta a pergunta: o tênis seguirá como mosaico de parceiros ou começará a operar como plataforma? A CazéTV, como agente externo, expõe os limites do controle do negócio de mídia no tênis, sugerindo que o excêntrico não é ela, mas o modelo que insiste em tratar o gratuito como exceção.



