O Museu de História Natural de Londres anunciou que paleontólogos da Universidade de Manchester descobriram a identidade de um fóssil datado em 415 milhões de anos como pertencente a um tipo de escorpião pré-histórico gigante, que pode ser considerado o maior do mundo. O Praearcturus gigas foi uma espécie de artrópode que viveu durante o período Devoniano Inferior – entre 419 milhões e 393 milhões de anos atrás – e, segundo especialistas, dominou a cadeia alimentar da região onde costumava viver: locais que hoje correspondem à Inglaterra e ao País de Gales.
Um século de mistério paleontológico
O fóssil, descoberto ainda no século 19, passou anos como protagonista de um debate entre paleontólogos, que não sabiam exatamente a que tipo de animal se atribuíam os restos orgânicos encontrados em Herefordshire, zona oeste da Inglaterra, na década de 1870. Por muitos anos, o fóssil, bastante danificado pelo tempo e sem a cauda característica de um escorpião, foi classificado erroneamente como um isópode gigante, contendo pinças de 16 centímetros e um corpo de aproximadamente um metro. Nos anos 1980, pesquisadores chegaram a lançar a possibilidade de ele pertencer a um escorpião, mas a falta de evidências complicava a confirmação.
Pesquisa decisiva na revista Palaeontology
Com a publicação da pesquisa na revista científica Palaeontology, no começo de junho, liderada pelo paleontólogo Richie Howard, curador de fósseis artrópodes no Museu de História Natural, descobriu-se que o crustáceo gigante era realmente um escorpião. Segundo o próprio paleontólogo, a descoberta muda completamente a maneira de entendermos a evolução desses animais. “O Praearcturus existiu quando a vida na Terra estava ainda começando, e os ancestrais dos répteis, mamíferos e aves ainda nem tinham saído da água. A descoberta sugere que esses animais tenham crescido de forma tão exagerada porque não haveria nenhum outro predador grande o suficiente; assim, abrindo espaço para que eles dominassem o ecossistema”, explicou Howard.
Fósseis canadenses foram a chave
O estudo liderado pelo pesquisador britânico vem se desenrolando desde 2008, quando a equipe de paleontólogos da Universidade de Manchester passou a analisar com mais profundidade os fósseis encontrados em Herefordshire, também investigados previamente em Birmingham, nos anos 1970, e Tredomen Quarry, durante a década passada. O que foi decisivo para definir o fóssil como um escorpião de dimensões grandiosas foi a análise de um fóssil canadense pertencente a outro escorpião gigante, em 2015, denominado Eramoscorpius brucensis. Segundo Richie Howard, o fóssil canadense apresentava em sua estrutura inferior um esterno triangular, junto a um sulco central bastante característico. O Praearcturus, por sua vez, também possuía essa mesma estrutura. “O Eramoscorpius foi nomeado com base em um fóssil bastante preservado, e é claramente um escorpião”, diz Howard. “O Praearcturus é de uma época semelhante à do Eramoscorpius e também possui uma dessas estruturas. Portanto, fica bastante claro que o Praearcturus é sim um escorpião”.
Um dos primeiros grandes predadores em terra firme
O que torna a descoberta da identidade do escorpião gigante tão importante para os paleontólogos é que a existência de animais, fossem artrópodes ou não, fora da água era praticamente escassa durante o período Devoniano Inferior. “Quando pensamos em artrópodes gigantes, as pessoas costumam imaginar milípedes como a Arthropleura ou uma espécie de libélula como a Meganisoptera. Mas essas espécies viveram no período Carbonífero, pelo menos 55 milhões de anos depois dos Praearcturus, uma vez que ecossistemas em terra firme ainda estavam em desenvolvimento”, complementa. A época em que o escorpião viveu marca a chegada da vida para terra firme. A vegetação ainda estava se fixando na terra, atingindo alturas ínfimas, e poucos eram os animais que haviam saído da vida marinha para se estabelecer em terra firme.
Adaptação e declínio
O Praearcturus gigas foi um dos poucos que conseguiu esse feito, procurando presas na água para se alimentar. A evidência desse tipo de prática está em sua estrutura em forma de nadadeiras, chamadas de epímeros, semelhante àquelas encontradas em lagostas e caranguejos. Com o passar de milhões de anos e o desenvolvimento de diversas espécies, é certo que o escorpião gigante foi perdendo seu lugar como predador implacável, já que a competição por presas foi aumentando gradativamente. A data exata que marca a extinção dos Praearcturus ainda é incerta para os especialistas – ainda assim, fragmentos de fósseis encontrados no País de Gales, pertencentes a espécimes provisoriamente associados ao fóssil britânico, sugerem que o artrópode possa ter vivido por mais 40 milhões de anos.



