DMT da ayahuasca estimula produção de novos neurônios em laboratório
DMT da ayahuasca estimula produção de neurônios

Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros revelou que a dimetiltriptamina (DMT), principal componente psicodélico da ayahuasca, é capaz de estimular células-tronco neurais humanas a se multiplicar, abrindo caminho para a produção de novos neurônios. A pesquisa, publicada no periódico científico "Proliferative Effects of the Psychedelic N,N-Dimethyltryptamine (DMT) in Human Neural Stem Cells", foi realizada por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR).

O que é a DMT e seu contexto histórico

A DMT é um psicodélico de ação rápida, conhecido por alterar profundamente a percepção, a experiência do tempo e a identidade, frequentemente descrita como dissolução das fronteiras do "eu". É o principal componente psicodélico da ayahuasca, utilizada por povos originários da Amazônia em contextos cerimoniais, espirituais e terapêuticos há séculos. Sintetizada pela primeira vez em 1931 pelo químico canadense Richard Manske, foi o pernambucano Oswaldo Gonçalves de Lima quem, em 1946, isolou a DMT da jurema-preta (Mimosa tenuiflora) a partir de estudos sobre o "vinho da jurema" usado por indígenas do Nordeste brasileiro. Os efeitos psicodélicos em humanos só foram caracterizados experimentalmente na década de 1950, pelo psiquiatra Stephen Szára.

O dogma da não regeneração neuronal

Durante décadas, acreditou-se que o cérebro adulto não produzia novos neurônios, dogma estabelecido por Santiago Ramón y Cajal em 1913. No entanto, evidências a partir de 1998 sugerem que a neurogênese pode ocorrer na vida adulta, embora em níveis baixos e com debates acalorados. Estudos de 2018 e 2019 apresentaram conclusões opostas, mas o consenso atual é que células-tronco neurais existem em pequena quantidade e passam a maior parte do tempo em repouso.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Como a pesquisa foi feita

Para investigar o efeito da DMT, os pesquisadores utilizaram a reprogramação celular, técnica reconhecida com o Nobel de 2012. Células adultas da pele foram reprogramadas para um estado imaturo, gerando células-tronco de pluripotência induzida, que por sua vez deram origem a células-tronco neurais humanas. Essas células foram expostas à DMT por 24 horas.

Resultados: multiplicação celular e fatores neurotróficos

Após a exposição, uma fração maior das células passou a se multiplicar, medida por marcadores de replicação do DNA. A DMT também aumentou a produção de moléculas importantes para a sobrevivência neuronal. O Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro (BDNF) subiu cerca de cinco vezes, tanto na expressão gênica quanto na quantidade de proteína. A maior surpresa foi o Fator de Crescimento do Nervo (NGF), cuja expressão gênica aumentou quase dez vezes. "A DMT parece ter deixado as células mais dispostas a se multiplicar, sem alterar o rumo de sua maturação", explicou Stevens Rehen, pesquisador do IDOR e UFRJ.

Persistência do efeito e relevância

Mesmo após a remoção da DMT, as células formaram neuroesferas maiores e metabolicamente mais ativas nos primeiros dias, indicando que a molécula deixou uma marca duradoura. "Uma exposição única de 24 horas foi suficiente", destacou José Alexandre Salerno, professor da UNIRIO. Estudos anteriores em roedores já haviam mostrado que a DMT estimula a neurogênese, mas este é o primeiro a demonstrar o efeito em células humanas.

Limitações e próximos passos

Os pesquisadores ressaltam que a neurogênese completa envolve múltiplas etapas: a célula precisa nascer, multiplicar-se, sobreviver, amadurecer, tornar-se neurônio e integrar-se aos circuitos existentes. O estudo observou apenas o primeiro passo — a proliferação. "Se essa reserva reage do mesmo modo dentro de um cérebro vivo, se essas células chegariam a virar neurônios funcionais, e se algo disso teria valor terapêutico, são perguntas ainda em aberto", afirmou Rehen.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Potencial terapêutico

Ensaios clínicos com DMT em humanos estão em andamento. Cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) testam efeitos terapêuticos da DMT e sugerem alívio rápido de sintomas depressivos após uma única dose. No setor privado, uma formulação bucal de DMT sintética está em estudo clínico para depressão resistente ao tratamento. "Podemos especular que essa capacidade terapêutica poderia também fazer células-tronco neurais se multiplicarem, gerarem neurônios e novas conexões", concluiu Rehen.