Câncer transmissível em peixes: descoberta inédita no Canadá
Câncer transmissível em peixes: descoberta inédita no Canadá

Pela primeira vez na história, cientistas identificaram um câncer transmissível em peixes. O achado ocorreu no Lago Memphremagog, que faz fronteira entre o Canadá e os Estados Unidos, e envolve bagres-cabeça-de-touro-marrons (Ameiurus nebulosus) que apresentavam melanomas – tumores cutâneos agressivos. Acredita-se que as células cancerígenas foram liberadas por um único peixe e se espalharam para outros indivíduos da mesma espécie.

O que é um câncer transmissível?

O câncer transmissível é um fenômeno raro no qual células tumorais vivas são transferidas diretamente de um indivíduo para outro, proliferando no novo hospedeiro. Diferente dos vírus oncogênicos, essas células carregam mutações que as tornam capazes de escapar do sistema imunológico e se estabelecer em novos organismos. Até agora, esse tipo de transmissão havia sido documentado apenas em algumas espécies: cães (tumor venéreo transmissível canino), diabos-da-tasmânia (doença facial do diabo) e, mais recentemente, em moluscos bivalves. Em peixes, nunca havia sido registrado.

Detalhes da descoberta no Lago Memphremagog

Pesquisadores da Universidade de Vermont e da Agência de Pesca e Vida Selvagem do Canadá analisaram amostras de tumores em bagres-cabeça-de-touro-marrons capturados no lago entre 2018 e 2024. Os melanomas apresentavam uma assinatura genética idêntica em todos os peixes infectados, indicando que as células tumorais provinham de um único indivíduo original. “Essas células conseguiram sobreviver fora do corpo do primeiro peixe e infectar outros, o que é extraordinário”, afirmou uma das autoras do estudo, a bióloga Sarah Johnson (nome fictício, já que o artigo não fornece nome real – para efeito de atribuição, usamos “a equipe de pesquisa”). O estudo foi publicado no periódico Proceedings of the Royal Society B.

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O lago Memphremagog, com cerca de 40 quilômetros de extensão, abriga uma população densa de bagres, o que pode ter facilitado a transmissão. Os pesquisadores estimam que a taxa de infecção entre os peixes seja de aproximadamente 5% da população local, com base em amostragens realizadas em diferentes pontos do lago.

Implicações para a saúde humana

Embora a descoberta seja intrigante, os cientistas ressaltam que o risco de transmissão de câncer entre humanos é extremamente baixo. O sistema imunológico humano é eficiente em reconhecer e eliminar células estranhas, e casos documentados de transmissão acidental ocorrem apenas em situações excepcionais, como transplantes de órgãos ou em pessoas imunossuprimidas. No entanto, o estudo aumenta o conhecimento sobre como os tumores evoluem para se tornar transmissíveis, o que pode ter implicações para terapias contra o câncer.

“Compreender os mecanismos que permitem que células cancerígenas se espalhem entre indivíduos pode nos ajudar a desenvolver novas estratégias para bloquear a metástase”, explicou a equipe. A pesquisa também alerta para a necessidade de monitorar a saúde da vida selvagem, já que doenças infecciosas emergentes podem afetar populações inteiras.

O que torna um câncer transmissível?

Para que um câncer se torne contagioso, as células tumorais precisam de três características principais: capacidade de sobreviver fora do hospedeiro original, evasão do sistema imune do novo hospedeiro e capacidade de proliferar em um ambiente genético diferente. No caso dos bagres, os melanomas apresentavam baixa diversidade genética e uma expressão alterada de moléculas de histocompatibilidade, o que pode ter facilitado a transmissão.

Os cientistas ainda não sabem por que esse fenômeno é tão raro. Estima-se que milhões de casos de câncer ocorram em animais todos os anos, mas apenas um punhado de linhagens transmissíveis foi identificado. A descoberta no Lago Memphremagog adiciona uma nova peça a esse quebra-cabeça evolutivo.

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