Bochecho de carboidrato: técnica científica engana o cérebro e melhora desempenho esportivo
Bochecho de carboidrato: técnica científica engana o cérebro

Vídeos de jogadores enchendo a boca com uma bebida e cuspindo em seguida viralizaram durante a Copa do Mundo de 2026. O gesto, que rendeu piadas e teorias nas redes sociais, tem uma explicação científica: o bochecho de carboidrato. Segundo Fernando Valente, coordenador do Departamento de Educação em Diabetes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e diretor do Departamento de Diabetes da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a técnica engana o cérebro, fazendo-o acreditar que há combustível disponível, sem fornecer calorias reais.

Como funciona o bochecho de carboidrato

De acordo com Valente, a prática consiste em manter na boca por alguns segundos uma solução rica em carboidrato — geralmente uma bebida esportiva concentrada em açúcar e eletrólitos — e depois cuspi-la, sem engolir. Receptores na cavidade bucal identificam a presença do carboidrato e enviam sinais ao sistema nervoso central, estimulando áreas como o córtex pré-frontal, responsável pelo desempenho cognitivo durante o esforço físico intenso. O resultado é uma redução na percepção de esforço e uma leve melhora no desempenho em exercícios de alta intensidade.

O especialista ressalta que o organismo não recebe calorias adicionais: não há ingestão, digestão ou conversão em energia. O cérebro interpreta que há combustível disponível e permite que o corpo sustente um esforço mais intenso, mesmo sem glicose real. Isso explica por que a técnica funciona mesmo em atletas bem alimentados — o mecanismo depende do estímulo sensorial na boca, não do estado nutricional prévio.

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Ganho pequeno, mas mensurável

Para praticantes recreativos, o efeito costuma passar despercebido. Já para atletas de elite, frações de segundo fazem diferença. Segundo Valente, a melhora de desempenho associada à técnica gira em torno de 1% a 3%. Uma revisão sistemática publicada na revista Nutrients, que reuniu onze estudos, encontrou melhora em nove deles, com ganhos variando de 1,5% a quase 12% em exercícios de intensidade moderada a alta e duração próxima de uma hora.

A maioria das pesquisas foi conduzida em ciclismo e corrida, com sessões de 30 a 75 minutos. Essa janela de tempo concentra os melhores resultados demonstrados até agora.

E numa partida de 90 minutos?

Uma partida de futebol dura 90 minutos ou mais, tempo superior à janela de eficácia comprovada do bochecho. No entanto, Valente pondera que a técnica pode ser útil em momentos específicos de alta intensidade, como disputas de bola no fim de um jogo equilibrado ou situações de pressão extrema.

Por que cuspir em vez de engolir?

A principal vantagem de não ingerir o carboidrato é evitar desconforto gastrointestinal. Em exercícios de alta intensidade, líquidos concentrados em açúcar podem causar náusea e sensação de estômago cheio, prejudicando o desempenho. O bochecho permite obter parte do benefício sem sobrecarregar o sistema digestivo.

No entanto, quando as reservas de glicogênio estão muito baixas — em exercícios muito prolongados — apenas bochechar não resolve. Nesse caso, o músculo precisa de energia real. Valente recomenda a ingestão efetiva em exercícios acima de 75 minutos ou quando o corpo demanda energia adicional.

Nem todo cuspe é bochecho de carboidrato

Apesar da repercussão, Valente evita afirmar que os jogadores flagrados nos vídeos estejam aplicando a técnica. O gesto de cuspir pode ter explicações simples, como hábito, desconforto ou descarte de água. Uma confirmação só seria possível com informações das equipes ou atletas. "Embora a técnica realmente exista e seja válida cientificamente", afirma Valente, isso não permite concluir que todo jogador cuspindo em campo esteja recorrendo a ela.

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