Amputação há 31 mil anos na Indonésia reescreve história da medicina
Amputação de 31 mil anos na Indonésia surpreende cientistas

Uma descoberta arqueológica na ilha de Bornéu, na Indonésia, acaba de reescrever a história da medicina: o esqueleto de um indivíduo que viveu há 31 mil anos apresenta a mais antiga amputação cirúrgica conhecida. O achado, publicado na revista Nature, demonstra que caçadores-coletores do Paleolítico Superior já dominavam técnicas cirúrgicas complexas, como a amputação de membros, com sucesso e cuidados pós-operatórios.

Ossos contam a história de uma cirurgia bem-sucedida

O esqueleto, quase completo, foi encontrado em uma caverna em Bornéu que foi habitada por milênios e contém pinturas rupestres de até 40 mil anos de idade. O sexo do indivíduo não pôde ser determinado, mas ele tinha aproximadamente 20 anos quando morreu. A perna esquerda foi amputada entre o joelho e o pé, com cortes precisos e transversais na tíbia e na fíbula, feitos por instrumentos de corte como facas ou machados. Não há sinais de esmagamento ou fraturas longitudinais, descartando acidente ou ataque de animal.

O mais impressionante é que as pontas dos ossos se regeneraram, formando um calo ósseo arredondado, indicando que a pessoa viveu cerca de seis anos após a amputação. A ausência de infecção nos ossos sugere recuperação rápida. Como a morte ocorreu por volta dos 20 anos, a amputação provavelmente foi realizada quando ele ou ela tinha 14 ou 15 anos.

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Datação confirma antiguidade do feito

A análise de isótopos de carbono e urânio nos dentes e de fragmentos de carvão associados aos ossos data a morte entre 30 e 31 mil anos atrás. Isso supera o recorde anterior de amputação, que era de um esqueleto de 7 mil anos encontrado na França. "Nunca se imaginou que essas populações conhecessem o suficiente para amputar uma perna", afirmam os pesquisadores no estudo.

Na época, os humanos viviam em bandos nômades, caçando e coletando alimentos, sem agricultura ou cidades. A descoberta indica que esses grupos já tinham conhecimento avançado de anatomia humana, circulação sanguínea, suturas e controle de infecções. "Sem essas tecnologias e conhecimentos, é difícil imaginar como conseguiram efetuar com sucesso um procedimento dessa complexidade", destaca o artigo.

Implicações para a compreensão das sociedades pré-históricas

Além da habilidade cirúrgica, a sociedade da época precisava ser organizada o suficiente para cuidar do paciente durante a recuperação e garantir sua sobrevivência por anos sem locomoção plena. "Essa descoberta vai levar os cientistas a reconsiderar o grau de desenvolvimento tecnológico e cultural desses povos", concluem os autores.

O achado força uma reavaliação do conhecimento e das tecnologias dominadas por sociedades que não deixaram registros escritos nem grandes construções, mas cujos vestígios ósseos e artefatos revelam uma sofisticação até então subestimada.

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