Incêndios em carros elétricos: menos frequentes, mas mais complexos
Incêndios em carros elétricos: menos frequentes, mas complexos

Incêndios envolvendo carros elétricos ainda são exceção, mas chamam atenção como poucos episódios no setor automotivo. Vídeos com labaredas intensas, fumaça densa e dificuldade no combate ajudam a criar a percepção de que esses veículos são mais perigosos do que os modelos a combustão. A realidade, porém, é mais complexa — e começa justamente pelo componente que diferencia os elétricos dos demais: a bateria.

Riscos tradicionais e a particularidade da bateria

Ao contrário do que o senso comum sugere, o carro elétrico não é um sistema isolado de riscos. Ele continua sujeito a causas tradicionais de incêndio, como curto-circuitos em sistemas auxiliares, falhas mecânicas, vandalismo ou até fontes externas de fogo. A diferença está no componente central do sistema — a bateria de alta tensão.

Para entender como esse conjunto influencia o comportamento de um eventual incêndio, o Jornal do Carro ouviu especialistas em engenharia automotiva, análise de falhas e eletromobilidade. A conclusão é direta: carros elétricos podem pegar fogo, mas o fazem com muito menos frequência. Quando isso acontece, no entanto, o comportamento do incêndio é diferente — e mais difícil de controlar.

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Frequência de incêndios: elétricos x combustão

Segundo Erbis Biscarri, engenheiro e perito judicial especializado na análise de falhas e incêndios em veículos, dados internacionais apontam que a incidência de incêndios em carros elétricos é significativamente menor do que em modelos a combustão. Uma das referências mais citadas indica cerca de 25 incêndios a cada 100 mil veículos elétricos, contra aproximadamente 1.500 casos no mesmo universo de carros a combustão. Ou seja, o problema não está na frequência, mas na forma como esses incêndios acontecem.

O fenômeno da fuga térmica

O principal fenômeno por trás dos incêndios em elétricos é o chamado thermal runaway, ou fuga térmica (ou também chamada de avalanche térmica). Trata-se de um processo em que uma célula da bateria entra em superaquecimento e desencadeia uma reação em cadeia.

“Você tem calor gerando reação química, e a reação química gerando mais calor. Isso se retroalimenta”, explica Eduardo Zambelli, diretor de eletromobilidade da AEA. Na prática, o processo pode começar de forma localizada — em uma única célula — e se espalhar rapidamente para as demais. Biscarri detalha que, nesse estágio, a célula pode liberar gases inflamáveis e até romper sua estrutura, aumentando a intensidade do incêndio e tornando o controle mais difícil.

Há ainda um fator que complica o cenário: diferentemente de incêndios convencionais, a reação química da bateria pode gerar seus próprios elementos combustíveis, o que reduz a dependência de oxigênio externo e dificulta o combate.

Três origens principais para o incêndio

Apesar da complexidade do fenômeno, os especialistas convergem para três principais origens que levam à fuga térmica.

  • Dano físico: Colisões, deformações no assoalho ou perfurações podem comprometer a integridade da bateria e provocar curtos internos. “Mesmo impactos que parecem pequenos podem gerar danos que não são visíveis externamente”, afirma Zambelli.
  • Problemas no carregamento: O uso de equipamentos inadequados, instalações elétricas improvisadas ou carregadores não homologados pode gerar sobrecarga e aquecimento excessivo. Biscarri cita casos em que o uso incorreto de equipamentos levou a incêndios ainda durante a recarga.
  • Falhas internas: Podem ser resultado de defeitos de fabricação — hoje considerados raros — ou da degradação química natural das células ao longo do tempo. Nesse processo, podem surgir microcurtos internos que evoluem para aquecimento e, em casos extremos, incêndio.

Por que a percepção de perigo é maior?

Se os elétricos pegam menos fogo, por que a sensação de risco é maior? A resposta está no impacto visual e na dinâmica do incêndio. Quando um carro elétrico entra em fuga térmica, as chamas tendem a ser mais intensas, com emissão de gases e possibilidade de pequenas explosões. Isso gera imagens mais dramáticas — e, consequentemente, maior repercussão.

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“É mais cinematográfico. Chama mais atenção, mesmo sendo mais raro”, resume Biscarri. Além disso, o tempo de combate é maior. Enquanto um incêndio em carro a combustão pode ser controlado em minutos, casos envolvendo baterias podem levar horas.

Desafios no combate ao incêndio

O desafio para conter um incêndio em carro elétrico está justamente na bateria. Como ela fica protegida e selada, o acesso direto às células é limitado. Além disso, o calor gerado internamente continua alimentando a reação mesmo após a contenção inicial das chamas.

“Você apaga e ele pode voltar. O problema é resfriar a bateria por dentro”, explica Eduardo Zambelli. É por isso que o combate exige uma abordagem diferente. Segundo o engenheiro e perito Erbis Biscarri, não se trata apenas de apagar o fogo visível, mas de reduzir a temperatura interna do conjunto. “Não é um incêndio convencional. Você precisa resfriar a bateria por completo para evitar a reignição”, afirma.

Na prática, isso significa uso de grandes volumes de água. De acordo com o especialista, o combate pode exigir milhares de litros — em alguns casos, estimativas chegam à casa de 40 mil litros — além de monitoramento contínuo do veículo após o controle das chamas.

Sinais de alerta e sistemas de proteção

Apesar da complexidade, os sistemas atuais são projetados para evitar que o problema evolua sem aviso. Os veículos contam com sistemas de gerenciamento da bateria (BMS), que monitoram temperatura, tensão e funcionamento em tempo real.

Na prática, o motorista pode perceber sinais como perda de desempenho, redução de potência ou alertas no painel antes de um problema mais grave. “Ele não vai dizer exatamente o que está acontecendo, mas indica que há algo errado”, diz Zambelli. Segundo o engenheiro, na maioria dos modelos o próprio sistema atua de forma preventiva ao identificar qualquer anormalidade. Isso inclui a redução da potência do carro e até a limitação — ou bloqueio — do carregamento da bateria, como forma de evitar o agravamento da falha.

Calor, enchente e uso diário: mitos e verdades

Um dos mitos mais comuns é que o calor intenso de países como o Brasil aumentaria o risco de incêndio. Os especialistas descartam essa hipótese. “As baterias são projetadas para operar em diferentes condições climáticas. Não há evidência de que o calor, por si só, cause incêndios”, afirma Zambelli. O mesmo vale para exposição à água ou enchentes, desde que não haja danos estruturais ao veículo.

Se há um ponto de atenção claro, ele está fora da engenharia do carro — e mais próximo do uso. Intervenções fora do padrão, histórico de colisões, reparos mal executados e uso de equipamentos inadequados aparecem como fatores recorrentes nos casos analisados. “A tecnologia é segura, mas precisa ser usada dentro das condições corretas”, resume Biscarri.

Menos frequente, mais complexo — e ainda em evolução

“Quando você olha proporcionalmente, o veículo a combustão ainda pega fogo muito mais”, afirma o engenheiro. “O problema é que o incêndio no elétrico chama mais atenção e gera uma percepção diferente do risco.”

O incêndio em elétricos é mais raro, mas também mais complexo. A chamada fuga térmica pode ocorrer por diferentes caminhos — elétrico, mecânico ou químico — e, uma vez iniciada, tende a se propagar rapidamente entre as células da bateria. “É uma reação que se autoalimenta. Quando começa, o controle fica muito mais difícil”, diz Eduardo Zambelli.

Por outro lado, a evolução da tecnologia tem caminhado na direção oposta. Segundo os especialistas, as baterias atuais já apresentam maior durabilidade e menor taxa de falhas do que o previsto inicialmente. “Os sistemas de controle evoluíram muito. Hoje você tem monitoramento constante e mecanismos de proteção que evitam que o problema avance”, afirma Zambelli.

Na prática, isso significa que o risco existe, mas está cada vez mais controlado — especialmente quando o veículo é utilizado dentro das condições recomendadas. “Na maioria dos casos mais críticos, há um fator externo envolvido, como dano estrutural, intervenção inadequada ou uso fora do padrão”, aponta Biscarri.

A tendência, segundo os engenheiros, é que a eletrificação avance acompanhada de normas mais rígidas e maior padronização global. “A tecnologia ainda está evoluindo, mas a tendência é de redução desses casos ao longo do tempo”, diz Zambelli. Até lá, entender como esses incêndios acontecem — e em que situações — é essencial para colocar o tema em perspectiva. “Não é uma tecnologia mais perigosa. É uma tecnologia diferente, que exige entendimento”, conclui Biscarri.