O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a citar Donald Trump e Javier Milei ao comentar, nesta sexta-feira, 31, a possibilidade de interferência de governantes estrangeiros nas eleições brasileiras. A declaração foi feita durante a convenção do PT que oficializou a candidatura de Elmano de Freitas à reeleição ao governo do Ceará.
O episódio desta semana reforça o tom de confronto político que Lula vem adotando diante de líderes da direita internacional. Na visão do presidente, a defesa da democracia no Brasil não admite ingerência externa, mesmo que venha dos nomes mais poderosos da política global.
“Enquanto eu viver, a extrema direita não voltará a governar esse país. E vou dizer mais: que venha ajudá-los quem quiser. Se quiser vir o Trump, que venha. Se quiser vir o Milei, que venha. Venha quem quiser. Eu não quero ajuda de fora. A única ajuda que eu quero é a ajuda do povo brasileiro para que a gente possa manter a democracia nesse país”, afirmou Lula na reta final de seu discurso.
Democracia e soberania na fala do presidente
Lula também respondeu a críticas e pressões externas com uma mensagem de soberania. “Ninguém fará eu baixar a cabeça para ninguém”, disse, acrescentando que “o Brasil não vai baixar a cabeça”. A fala foi interpretada como uma recusa a qualquer tipo de alinhamento automático a lideranças estrangeiras conservadoras.
O presidente tem usado seus discursos em eventos partidários para reforçar a narrativa de que o processo eleitoral brasileiro deve ser decidido pelos brasileiros. As palavras dirigidas a Trump e Milei se encaixam nesse contexto, em meio à polarização política que também atinge o cenário internacional.
O PT cearense, ao oficializar a candidatura de Elmano de Freitas, aposta em Lula como principal cabo eleitoral no estado. O atual governador busca a reeleição, e o presidente passa a ser peça central para a mobilização do eleitorado petista.
Declarações anteriores e tensão com Milei
Na quarta-feira, 29, Lula já havia feito referências aos dois presidentes durante convenção do PSB que oficializou Geraldo Alckmin como candidato a vice em sua chapa. Na ocasião, o petista afirmou que não quer briga com Trump “nem a porrete” e classificou como “pataquada” uma atitude de Milei no Brasil.
Milei, por sua vez, participou da convenção do PL que lançou Flávio Bolsonaro à Presidência da República. No evento, o argentino chamou Lula de “presidiário” e se referiu ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes como “lixo careca”. Diante das declarações, o governo brasileiro convocou seu embaixador no país.
Educação, tecnologia e competição com a China
No discurso desta sexta, Lula também destacou a importância de o Brasil avançar na formação de mão de obra qualificada para competir com as grandes economias. Ele defendeu a ampliação de universidades e institutos federais, com ênfase em áreas como exatas e tecnologia.
“Nós precisamos fazer mais universidades, fazer mais institutos federais. Ensinar mais matemática, mais engenharia. Não é preciso formar mais tantos advogados como formamos hoje. Nós precisamos apostar na nossa meninada, estudar engenharia, estudar inteligência artificial, estudar matemática para que a gente possa competir com a China, para que a gente possa acabar com a arrogância do Trump e dizer: ‘Nós somos o país que mais temos investimentos’. Nós poderemos passar eles. Porque o brasileiro não deve inteligência a ninguém”, declarou.
Com essas declarações, Lula busca posicionar o Brasil como um ator independente no cenário internacional, capaz de dialogar com todas as potências sem abrir mão de seus interesses. A menção à China e aos Estados Unidos mostra que, para o presidente, o futuro do país passa por uma combinação de investimento em ciência, tecnologia e educação.
Para o presidente, apostar em ciência e tecnologia é também uma forma de reduzir a dependência externa e criar condições de soberania econômica. A referência à inteligência artificial sinaliza uma preocupação com os desafios futuros do mercado de trabalho e da competitividade nacional.
Impacto político das declarações
A sequência de ataques e respostas entre Lula, Trump e Milei acirra o clima político em meio ao processo eleitoral. O PT, por sua vez, usa as falas do presidente para reforçar a base eleitoral e apresentar Lula como um líder que enfrenta adversários poderosos em nome da democracia.
As declarações de Lula também servem para demarcar o campo político. Ao desafiar adversários internacionais pelo nome, o presidente busca transformar a disputa eleitoral em um embate direto entre o projeto democrático e as forças da extrema direita apoiadas por Trump e Milei.
No plano interno, Lula repete que a ajuda que deseja é a “do povo brasileiro”. A frase, repetida no Ceará, tenta isolar a extrema direita no país e colocar o debate eleitoral em torno da preservação da democracia.



