Brasil aprova primeiro centro de protonterapia, mas tratamento só em 2030
Centro de protonterapia aprovado, mas só em 2030

A Finep, agência do Ministério da Ciência e Tecnologia, aprovou R$ 132,6 milhões para erguer o primeiro centro de protonterapia do Brasil, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. A unidade, batizada Centro de Protonterapia Mário Kroeff, usará uma radioterapia mais precisa que a convencional, concentrando a dose no tumor e poupando tecidos saudáveis. Contudo, a construção ainda não começou e a previsão de atender os primeiros pacientes é apenas em 2030.

O que é a protonterapia e por que ela é diferente

A protonterapia substitui os fótons da radioterapia comum por prótons. Essas partículas têm a propriedade de depositar a maior parte da energia exatamente no tumor e parar, sem atravessar o corpo. Isso reduz a irradiação de órgãos vizinhos. "O fóton atravessa o corpo e não tem freio. O próton chega ao tumor e para ali", explica Marcos Santos, radioterapeuta e ex-presidente da Alatro. Esse comportamento, chamado pico de Bragg, é especialmente útil em tumores próximos a áreas sensíveis.

No entanto, a técnica não é superior para todos os casos. Para a maioria dos tumores, a radioterapia convencional continua sendo a melhor indicação. "Custar vinte vezes mais não significa ser vinte vezes melhor", ressalva Santos. O maior benefício está nos tumores pediátricos, especialmente os do sistema nervoso central, medula espinhal e outros órgãos críticos, pois reduz sequelas tardias em crianças que têm décadas de vida pela frente.

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Uma tecnologia cara e rara no mundo

A protonterapia é aprovada pela Anvisa há anos, mas nunca saiu do papel no Brasil devido ao alto custo. Além do acelerador de partículas, o centro exige blindagem contra radiação, manutenção especializada e equipes treinadas. Só a manutenção mensal deve custar cerca de US$ 1,2 milhão. "Com o valor de um centro de prótons, você constrói uns vinte serviços convencionais de radioterapia", compara Santos. Existem apenas cerca de 142 centros no mundo, e nenhum na América Latina.

O financiamento da Finep cobre parte do custo total estimado em R$ 400 milhões. Somados aos R$ 82,4 milhões de contrapartida da Fundação Educacional Severino Sombra (FUSVE), que administrará o centro em parceria com o Inca, o aporte chega a R$ 215 milhões. A máquina será fornecida pela empresa belga IBA e deve chegar ao Brasil apenas no segundo semestre de 2029, levando cerca de um ano para instalação e testes.

Tratamento no exterior e a espera dos pacientes

Atualmente, brasileiros que precisam de protonterapia precisam viajar para o exterior. Segundo os responsáveis pelo projeto, de 20 a 30 pacientes viajam por mês para se tratar, com custos entre R$ 765 mil e R$ 1,02 milhão por tratamento. O centro pretende atender prioritariamente crianças com sete tipos de câncer, como meduloblastoma, retinoblastoma e glioma. Cerca de 8,6 mil novos casos de câncer infanto-juvenil ocorrem por ano no Brasil, e estima-se que 15% tenham indicação para prótons.

O projeto prevê reservar ao menos 60% da capacidade para o SUS, mas isso depende de decisão do Ministério da Saúde. A tecnologia ainda não foi submetida à Conitec, órgão que avalia incorporação de novas tecnologias no sistema público. Quando for analisada, serão considerados segurança, eficácia e custo-efetividade.

Desafios de um país continental

Uma única unidade na Barra da Tijuca não atenderá toda a demanda nacional. O projeto estima que seriam necessárias cinco salas de tratamento apenas para a demanda pediátrica. "Vai ser preciso criar uma rede de encaminhamento e priorizar esses casos", afirma Santos. O licenciamento nuclear da unidade está sob análise da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), etapa obrigatória antes da operação.

Mesmo com a inauguração prevista para 2030, o maior obstáculo será transformar a tecnologia em tratamento acessível. "É uma alternativa interessante, mas muito específica. A iniciativa é louvável. Só lamento que comece apenas em 2030. Deveria ter começado antes", conclui Santos.

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