Não há despolarização eleitoral, avalia pesquisador
Não há despolarização eleitoral, diz pesquisador

O cientista político Leonardo Avritzer, professor aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador visitante do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj), faz uma avaliação contundente sobre o momento eleitoral brasileiro: não há despolarização em curso, mesmo com a acomodação das pesquisas de intenção de voto. Para o coordenador da pesquisa A Cara da Democracia, a sociedade civil segue dividida, mas essa divisão pode estar restrita a um núcleo menor de eleitores.

Em análise ao blog Pulso, do jornal O Globo, Avritzer destacou que o processo eleitoral deste ano será fortemente influenciado por dois elementos: a evolução das crises envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o desempenho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Região Sudeste. Ambos os fatores, na visão do pesquisador, podem redesenhar o mapa da disputa presidencial.

O que significa dizer que não há despolarização

A despolarização, conceito frequentemente citado por analistas políticos, ocorreria quando o eleitorado abandona os extremos e se move em direção ao centro, permitindo que candidaturas de terceira via ganhassem espaço. No entanto, Avritzer ressalta que, apesar de algumas pesquisas indicarem crescimento de nomes alternativos, a estrutura do voto continua organizada em torno de dois polos: o bolsonarismo e o petismo.

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Para ele, o que se observa é uma espécie de polarização estável, na qual ambos os lados mantêm suas bases mobilizadas, mas com baixa capacidade de expansão para o eleitorado mediano. Esse cenário tende a favorecer o segundo turno entre os dois principais candidatos, reduzindo o chamado voto útil e dificultando a vida de candidatos de centro.

A pesquisa A Cara da Democracia

A pesquisa A Cara da Democracia, coordenada por Avritzer, é uma das mais citadas no debate público para entender a relação entre a população e as instituições. O projeto busca mensurar a confiança no sistema eleitoral, na Justiça e nos partidos, além de avaliar a percepção sobre a qualidade da democracia brasileira.

Com base nos dados do levantamento, o cientista político tem chamado atenção para a persistência da polarização afetiva, em que o ódio ao adversário é mais forte do que a adesão a uma plataforma política. Essa característica, segundo ele, explica a dificuldade de se construir pontes de diálogo entre os campos opostos.

O peso do caso Flávio Bolsonaro

Os desdobramentos das investigações e processos contra Flávio Bolsonaro são, na avaliação de Avritzer, um dos fatores que podem alterar a correlação de forças eleitorais. O senador é acusado de participar de um suposto esquema de rachadinha em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, o que gerou uma série de crises para a família Bolsonaro.

Para o pesquisador, há uma dupla leitura desse fenômeno. Entre os bolsonaristas convictos, a tendência é que o caso seja interpretado como uma perseguição judicial, reforçando o sentimento de pertencimento a um grupo de injustiçados e aumentando a coesão do grupo. Já entre os eleitores mais flutuantes, o desgaste pode ampliar a rejeição ao clã político e transferir votos para outras candidaturas, inclusive para Lula no segundo turno.

Sudeste: o termômetro da eleição

Outro ponto central levantado por Avritzer é o desempenho de Lula na Região Sudeste, a maior do eleitorado nacional. São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo concentram milhões de votos, e qualquer estratégia presidencial precisa necessariamente dialogar com esses estados.

O ex-presidente, que começou sua vida pública em São Paulo e governou o país por dois mandatos, busca reconquistar uma região que se tornou mais receptiva ao bolsonarismo nos últimos anos. O cientista político avalia que, se Lula conseguir melhorar seus índices em cidades médias e grandes do Sudeste, sua vitória será facilitada. Por outro lado, um fraco desempenho na região pode tornar o segundo turno incerto.

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Cenário de curto prazo

Em um cenário sem despolarização, as próximas semanas de campanha devem ser pautadas pelo confronto direto entre os dois principais candidatos. A avaliação de Avritzer é que as agendas de terceiros candidatos serão espremidas pela lógica binária do voto, dificultando a sobrevivência de opções como Ciro Gomes, Simone Tebet e André Janones na reta final.

A pesquisa A Cara da Democracia, que continuará coletando dados ao longo do ano, deverá fornecer novos sinais sobre o humor do eleitorado. Para Avritzer, o essencial é observar como os eventos políticos recentes afetarão a mobilização dos polos. Ainda que a divisão social pareça menor, a polarização estrutural segue viva e será determinante para o resultado das urnas.