Quatro pessoas morreram soterradas na tarde de sexta-feira (31) no bairro Nova Rosa da Penha II, em Cariacica, na Região Metropolitana de Vitória, depois que um barranco cedeu durante a obra de ampliação de uma distribuidora de bebidas. O deslizamento aconteceu por volta das 16h16, quando os trabalhadores realizavam a escavação do terreno para a construção de um muro de arrimo.
Polícia investiga
A Polícia Civil informou que o caso será investigado pela Delegacia Especializada de Acidentes de Trabalho (Deat). Em nota, a corporação disse que “as circunstâncias do fato serão apuradas” e que não há detalhes a repassar no momento. A Polícia Científica foi acionada às 16h16 de sexta-feira para atender a ocorrência de acidente de trabalho.
Os corpos das quatro vítimas — homens de 31, 32, 48 e 61 anos — foram encaminhados ao Instituto Médico-Legal (IML), em Vitória, para necropsia e, posteriormente, liberados para os familiares. Os sepultamentos ocorreram na tarde de sábado (2).
Vítimas do desabamento
Entre os mortos está o empresário Vanderson Santana André, de 35 anos, dono da distribuidora. Horas antes da tragédia, ele publicou vídeos nas redes sociais mostrando a rotina da empresa e o andamento da obra, inclusive ao lado dos três pedreiros que também morreram. Vanderson tinha mais de 150 mil seguidores e deixou esposa e um filho pequeno.
As outras três vítimas eram da mesma família, pai, filho e tio:
- Ronival Moreira de Jesus, pedreiro, havia trabalhado por muitos anos como taxista antes de atuar na construção civil;
- Ruan Moreira da Luz, filho de Ronival, tinha deixado o emprego na Central de Abastecimento do Espírito Santo (Ceasa) para trabalhar ao lado do pai;
- Valdomiro Moreira de Jesus, tio de Ronival, também integrava a equipe.
Segundo familiares, os três costumavam trabalhar juntos e eram conhecidos na comunidade.
Obra irregular e embargo
De acordo com a Prefeitura de Cariacica, a obra estava embargada havia cerca de um ano, com determinação de paralisação imediata. O município afirmou em nota que não houve falha na fiscalização e que houve negligência do responsável, que teria retomado os serviços de forma irregular cerca de uma semana antes do desabamento.
O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Espírito Santo (Crea-ES) realizou vistoria no sábado (1º) e constatou indícios de que a obra era executada sem responsáveis técnicos, além de irregularidades na escavação. O engenheiro fiscal Giuliano Battisti explicou que a escavação avançou além do limite permitido, provocando grande perda de sustentação de um solo predominantemente argiloso.
“O terreno precisava ser escavado em níveis, e não em um ângulo de 90°, como estava sendo feito. A intervenção ocorria totalmente fora das normas técnicas e de segurança. O corte chegou a um ponto em que o solo não suportou a inclinação e cedeu ao estado natural”, disse Battisti.
O engenheiro também alertou para os riscos de obras sem projeto e sem acompanhamento de profissional habilitado: “Quando essas regras não são seguidas, infelizmente as pessoas ficam expostas a situações de risco”.
Interdição e risco para moradores
Após o acidente, a Defesa Civil interditou por tempo indeterminado três imóveis: a distribuidora onde a obra era realizada, um galpão vizinho e um prédio construído acima do barranco. Os moradores tiveram que deixar o local e seguem sem previsão de retorno.
Segundo Battisti, fatores climáticos como chuva, sol e vento podem comprometer ainda mais a estabilidade do solo. “Os fatores climáticos, não só a chuva, o próprio sol, essa variação e o vento, tudo isso impacta nessa estabilidade. Por isso, precisa ser feito um trabalho de engenharia para estabilização”, afirmou.
O engenheiro disse que o imóvel no topo do barranco corre risco, mas não está condenado. “A liberação só ocorrerá após a assinatura dos responsáveis técnicos e da Defesa Civil”, concluiu.



