Defesa no Brasil: cortes e promessas ameaçam soberania
Defesa no Brasil: cortes e promessas ameaçam soberania

A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, publicada em 2025, indicou uma mudança relevante nas prioridades da administração Donald Trump para o Hemisfério Ocidental. Trata-se de uma releitura contemporânea da Doutrina Monroe e de seu princípio de que a América deve ser tratada como esfera prioritária dos interesses norte-americanos.

O retorno do foco para as Américas

Após décadas em que as atenções de Washington estiveram voltadas para a Europa do pós-guerra, a guerra fria, a guerra ao terror e a competição com a China, nosso continente voltou ao centro do debate geopolítico. Da Groenlândia à Patagônia, passando pelo combate ao narcotráfico, pela segurança energética e pela disputa por recursos naturais estratégicos, os países da região foram lembrados da necessidade de proteger seus próprios interesses diante das ações de atores externos.

Forças Armadas brasileiras: diagnóstico de precariedade

No Brasil, essa reflexão chega num momento delicado. Por décadas, a capacidade militar nacional foi relegada a segundo plano. Nos últimos anos, a precariedade das Forças Armadas tornou-se mais visível para a sociedade. Entrevistas, pronunciamentos oficiais e sucessivos alertas de autoridades civis e militares expuseram limitações que há muito foram mantidas internamente.

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Seria razoável esperar que esse diagnóstico levasse a medidas concretas de fortalecimento da Defesa nacional. O que se observa, contudo, é a persistência de um problema estrutural: a dificuldade do Estado brasileiro em assegurar recursos previsíveis e sustentáveis para seus projetos estratégicos de longo prazo.

Contradições entre anúncios e orçamento

Essa contradição ficou evidente em 4 de junho, dois dias após a entrega de outra aeronave Gripen ao Brasil, e uma semana após um corte de R$ 4,3 bilhões no orçamento do Ministério da Defesa. Naquele dia, o ministro José Múcio manifestou a expectativa de ampliar a frota nacional dessas aeronaves com a aquisição de novas unidades. Trata-se de aspiração legítima e coerente com as necessidades do Brasil. Caso se concretize, representará reforço relevante da capacidade de dissuasão do País.

A experiência recente, contudo, recomenda cautela. Mesmo ampliações modestas da frota encontraram obstáculos legais, fiscais e contratuais relevantes. O desafio não está apenas na decisão política de adquirir novos meios, mas na capacidade de suportá-los por décadas.

Programas estratégicos sob pressão fiscal

O problema torna-se ainda mais evidente quando observamos a execução dos principais programas estratégicos de Defesa. Os contratos do Gripen e dos cargueiros KC-390 passaram por sucessivas adequações às limitações orçamentárias, o mesmo tendo ocorrido com outros projetos das três Forças. Trata-se de uma realidade que atravessa governos e administrações, refletindo uma dificuldade histórica do País em compatibilizar planejamento de longo prazo com a dinâmica anual do Orçamento público.

Ao mesmo tempo, sucessivos contingenciamentos e restrições fiscais afetam a capacidade das Forças de manter níveis adequados de treinamento, manutenção e prontidão operacional. O resultado dessa asfixia já pode ser observado no cotidiano, multiplicando-se os processos de “canibalização” dos meios para obtenção de peças de reposição, prática que compromete a disponibilidade e evidencia a distância entre os anúncios políticos e a realidade da sustentação logística.

O padrão de anúncios sem sustentação

Assim, repete-se um padrão da administração pública brasileira. Privilegiam-se anúncios de grande visibilidade e retorno político imediato, enquanto os recursos destinados ao custeio, à manutenção e à prontidão operacional permanecem invisíveis ao debate público. Compra-se o equipamento, mas negligencia-se sua sustentação ao longo do ciclo de vida.

Defesa não se resume à aquisição de plataformas sofisticadas. O poder militar depende da capacidade de operar, manter, treinar e substituir esses sistemas ao longo de décadas. Sem isso, mesmo os equipamentos mais avançados tornam-se símbolos de prestígio, e não instrumentos efetivos de dissuasão.

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Necessidade de financiamento estável

Reconheço as iniciativas recentes voltadas à busca de maior previsibilidade para os investimentos em Defesa. Entretanto, enquanto não forem criados mecanismos permanentes e estáveis de financiamento de longo prazo, continuaremos sujeitos a ciclos recorrentes de entusiasmo e frustração, nos quais projetos estratégicos convivem com severas restrições para aquisição e operação.

Talvez tenha chegado o momento de discutir instrumentos mais adequados para o financiamento da Defesa nacional, que garantam previsibilidade plurianual aos programas estratégicos. Alternativamente, será necessário adequar nossas ambições às reais capacidades fiscais do Estado brasileiro. Ambas as opções são legítimas. Não me parece razoável continuar anunciando capacidades que não seremos capazes de sustentar.

Soberania exige mais que manchetes

A soberania não é garantida por manchetes. Ela depende de planejamento, continuidade, credibilidade e responsabilidade fiscal. Ignorar essa realidade significa transformar investimentos estratégicos em ativos subutilizados e perpetuar um ciclo de expectativas elevadas e resultados limitados. Num ambiente internacional cada vez mais imprevisível, esse é um luxo que o Brasil não pode se permitir.