Acordo nuclear EUA-Arábia Saudita reacende temor de corrida armamentista
Acordo nuclear EUA-Arábia Saudita reacende temor de corrida

A assinatura de um acordo de cooperação nuclear entre Estados Unidos e Arábia Saudita, que permite aos sauditas enriquecer urânio, recoloca o mundo na trilha de uma perigosíssima corrida armamentista que vinha sendo contida desde pelo menos 1970, quando o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (NPT) passou a vigorar.

Reações e condicionantes

A forte repercussão negativa em relação ao acordo forçou o presidente dos EUA, Donald Trump, a condicionar o pacto à adesão saudita aos Acordos de Abraão, ou seja, ao reconhecimento de Israel. Ainda assim, sobram muitas razões para preocupação. A maior delas é o fato de que, na prática, não há nada no acordo que impeça a Arábia Saudita de produzir armas nucleares.

Diferenças em relação a acordos anteriores

Ao contrário dos Emirados Árabes Unidos (UAE), que em 2009 assinaram um acordo nuclear com os americanos, os sauditas não terão de cumprir todas as regras do chamado “123 Agreement”, modelo que especialistas em não proliferação consideram o “padrão-ouro” para pactos nucleares para fins civis. Pelas regras do modelo 123, o país parceiro não pode enriquecer urânio, reprocessar combustível ou transferir material e tecnologia para terceiros sem a aprovação prévia dos EUA. Mas o acordo com os sauditas não só não os impede de enriquecer urânio, como ainda os isenta de inspeções surpresas e rigorosas, que é o padrão da ONU.

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Preocupações regionais

A ênfase dada por Trump e pela Arábia Saudita no suposto caráter civil do acordo tampouco reduz o desassossego com a assinatura do pacto. Há particular receio em Israel – por ora o único país da região que detém arsenal nuclear. O direitista Avigdor Lieberman, um dos principais líderes da oposição ao governo de Binyamin Netanyahu, disse que “todo programa nuclear militar começou como programa civil”.

Não será surpresa se países como a Turquia e os próprios Emirados Árabes, que construíram sua usina nuclear de Barakah seguindo regras rígidas não exigidas da Arábia Saudita, passarem a buscar acordos semelhantes com os EUA.

Interesses americanos

Para Trump, contudo, nada disso parece importar. O acordo será benéfico para empresas americanas do setor, e isso parece bastar para o presidente americano. Além disso, uma Arábia Saudita com capacidade nuclear pode servir como contraponto a um Irã com arsenal atômico. Considerando que os EUA, por ora, foram incapazes de afastar completamente o risco de os aiatolás iranianos desenvolverem armas nucleares, faz sentido investir num dos principais adversários do regime iraniano na região. No entanto, as consequências dessa decisão podem ser catastróficas.

Papel do Congresso dos EUA

Agora cabe ao Congresso dos EUA, que tem 90 dias para emitir um parecer sobre o acordo, frear tamanha insensatez. No entanto, isso exigirá que dois terços dos congressistas americanos se manifestem contra o acordo, de modo que possam barrar um potencial veto de Trump. Hoje, tal união do Congresso americano contra uma determinação de Trump é altamente improvável, razão pela qual o mundo deve se preparar para um cenário de grande risco e incerteza numa das regiões mais voláteis do planeta.

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