EUA e Arábia Saudita fecham acordo nuclear que permite enriquecimento de urânio
Acordo nuclear EUA-Arábia Saudita permite enriquecimento de urânio

Acordo histórico entre Washington e Riad

Os governos dos Estados Unidos e da Arábia Saudita fecharam um acordo que permite ao país árabe enriquecer urânio no âmbito de seu programa nuclear civil. Segundo os jornais "New York Times" e "The Wall Street Journal", o texto deve ser assinado ainda nesta quarta-feira (22) na Casa Branca. O acordo terá validade de 30 anos e prevê a participação de empresas americanas no desenvolvimento da infraestrutura nuclear saudita. A aprovação, entretanto, ainda depende da análise do Congresso dos EUA.

Resistência no Congresso e preocupações com proliferação

A proposta enfrenta resistência de parlamentares dos EUA e de autoridades internacionais, preocupados com os riscos de uma proliferação nuclear no Oriente Médio. O anúncio ocorre em um momento de tensão na região, com o acirramento da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Críticos afirmam que o pacto pode enfraquecer o discurso de Washington contra o programa nuclear iraniano e estimular uma corrida armamentista regional.

Detalhes do acordo: o que está e o que não está no texto

O texto cria uma base legal para a cooperação nuclear entre Estados Unidos e Arábia Saudita por 30 anos. Ele abre caminho para que os americanos ajudem no desenvolvimento da infraestrutura nuclear saudita e permite, em tese, a construção de uma instalação de enriquecimento de urânio no país. Também garante prioridade às empresas dos EUA na disputa pelos contratos do programa nuclear saudita.

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Até onde se sabe, o acordo não obriga os Estados Unidos a transferirem tecnologia de enriquecimento de urânio nem a construírem imediatamente uma usina desse tipo na Arábia Saudita. O novo pacto também não inclui duas salvaguardas consideradas essenciais por especialistas: a cláusula conhecida como "padrão ouro", pela qual o país abriria mão de enriquecer urânio e de reprocessar combustível nuclear usado - de modo a evitar usos bélicos da substância; nem o Protocolo Adicional da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que amplia o poder de fiscalização dos inspetores internacionais.

Próximos passos: análise do Congresso dos EUA

Pela legislação americana, acordos desse tipo precisam ser enviados ao Congresso dos Estados Unidos para revisão. Os parlamentares terão 90 dias para analisar e votar a medida, cuja decisão pode ser vetada pelo Executivo. Se Trump assim decidir, seria necessária uma maioria de dois terços nas duas Casas do Congresso para contrariar o eventual veto presidencial.

Motivações sauditas e americanas

O governo saudita afirma que pretende usar energia nuclear para diversificar sua matriz energética, reduzir as emissões de carbono e economizar petróleo e gás, que hoje abastecem a maior parte da geração elétrica do país. A ideia é utilizar a energia atômica em atividades como dessalinização da água do mar e uso de ar-condicionado, aumentando a quantidade de petróleo disponível para exportação. Em janeiro de 2025, o reino também anunciou que pretende enriquecer urânio para produzir "yellowcake", um concentrado usado como matéria-prima para combustível nuclear.

Para Washington, o acordo traz vantagens estratégicas e econômicas. Além de abrir um mercado bilionário para empresas americanas, ele mantém os Estados Unidos como principal parceiro do programa nuclear saudita, reduzindo o espaço para concorrentes como China, Rússia, França e Coreia do Sul. O governo Trump também avalia que a participação direta dos EUA permitirá acompanhar mais de perto o desenvolvimento do programa e exercer maior influência sobre ele.

Preocupações e implicações regionais

Especialistas afirmam que o enriquecimento de urânio, embora tenha aplicações civis, também pode ser usado para produzir material destinado a armas nucleares. Sem salvaguardas adicionais, um país que domine essa tecnologia pode, em tese, enriquecer urânio em níveis suficientes para uso militar. Parlamentares americanos e especialistas temem que o acordo incentive outros países da região a buscar capacidades semelhantes e aumente o risco de uma corrida nuclear no Oriente Médio.

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A rivalidade entre Arábia Saudita e Irã está no centro do debate. O príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, já declarou que, se o Irã desenvolver uma arma nuclear, seu país fará o mesmo "o mais rápido possível". Além disso, críticos observam que o acordo pode enfraquecer um dos argumentos usados pelos Estados Unidos para justificar sua campanha militar contra o Irã: a oposição ao enriquecimento de urânio em território iraniano. Para esses analistas, permitir essa mesma atividade na Arábia Saudita pode gerar questionamentos sobre a coerência da política americana para a região.