MPF determina correção em contas de água de Dourados
A Empresa de Saneamento de Mato Grosso do Sul (Sanesul) terá que modificar as informações sobre a qualidade da água distribuída em Dourados nas próximas faturas. A determinação partiu do Ministério Público Federal (MPF), que identificou contradições nos dados divulgados sobre os riscos de contaminação do Rio Dourados por agrotóxicos e pesticidas. A concessionária possui 30 dias para implementar as alterações.
Contradições apontadas pelo MPF
De acordo com o Painel de Monitoramento de Resíduos de Agrotóxicos em Águas Superficiais de Mato Grosso do Sul, desenvolvido pela Embrapa Agropecuária Oeste, somente nos primeiros quatro meses de 2026 foram detectados 38 tipos de pesticidas na água do Rio Dourados. A investigação teve início após a análise das contas de água de março e abril de 2026.
Nas faturas, a Sanesul informava que a bacia do Rio Dourados sofre influência de atividades agrícolas e pecuárias, que podem causar contaminação. No entanto, o mesmo documento afirmava que não havia "riscos evidentes de sofrer contaminação". Para o MPF, essa informação é contraditória, pois omite a presença frequente de agrotóxicos no manancial, desrespeitando as regras de transparência previstas no Código de Defesa do Consumidor e na Lei de Saneamento Básico.
Mudanças exigidas nas faturas e relatórios
A recomendação do MPF determina que a Sanesul altere as informações divulgadas nas contas de água. Com as mudanças, as faturas deverão conter um resumo dos resultados das análises e destacar, de forma clara, os riscos que podem afetar a saúde da população. A empresa também deverá orientar os consumidores sobre medidas de prevenção e retirar o trecho que afirma não haver riscos evidentes de contaminação.
Além disso, as alterações deverão ser incluídas no relatório anual da concessionária. O documento deverá detalhar as condições da bacia hidrográfica, as possíveis fontes de contaminação e os resultados mensais das análises da água distribuída. O relatório também deverá informar o Valor Máximo Permitido (VMP) para cada substância, conforme as normas do Ministério da Saúde, o número de amostras coletadas, os casos em que foram encontrados agrotóxicos e as medidas adotadas para prevenir ou corrigir problemas. Resultados fora dos padrões de qualidade deverão ser identificados com o aviso "Fora dos padrões de potabilidade".
Monitoramento revela presença alarmante de agrotóxicos
Segundo o levantamento do Painel de Monitoramento, o herbicida atrazina foi encontrado em 84,44% das amostras coletadas no Rio Dourados. Das 630 análises realizadas até 24 de abril de 2026, 532 detectaram a substância. A preocupação aumentou após a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (Iarc) reclassificar, em novembro de 2025, a atrazina e o alaclor como substâncias do Grupo 2A, categoria que reúne agentes considerados provavelmente cancerígenos para seres humanos.
O monitoramento também aponta aumento na variedade de pesticidas encontrados no rio. Em 2019, foram identificados 20 tipos de produtos. Em 2025, esse número subiu para 43. Apenas nos quatro primeiros meses de 2026, já haviam sido detectados 38 tipos de pesticidas. Os dados mostram ainda a variação da concentração de atrazina ao longo dos anos. O maior registro foi feito em 28 de março de 2024, quando a concentração chegou a 0,933 micrograma por litro (µg/L). Os maiores valores registrados em cada ano foram de 0,130 µg/L em 2020, 0,188 µg/L em 2021, 0,254 µg/L em 2022, 0,666 µg/L em 2023 e 0,207 µg/L em 2025. Em 2026, até o período analisado, o maior índice foi de 0,456 µg/L.



