A Operação Gutemberg, ofensiva do Ministério Público de Mato Grosso do Sul contra fraudes em licitação na compra de livros paradidáticos por administrações municipais, revela como o empresário Felipe Paroschi Jafar teria se beneficiado do desvio de dinheiro de ao menos 12 prefeituras. Elas pagaram R$ 27 milhões à editora Avante, de propriedade de sua família.
Áudios e mensagens comprovam envolvimento
Áudios a cujas transcrições o Estadão teve acesso indicam a intensa atividade e os métodos de Felipe para embolsar parte dos valores. Tratado por “Felipinho” pelos outros investigados, ele foi preso no último dia 7, por ordem da juíza May Melke Amaral Penteado Siravegna, do Núcleo de Garantias da Justiça de Campo Grande. Outros 15 alvos tiveram a prisão decretada, inclusive a mãe de Felipe, a dentista Rossana Jafar, e dois irmãos dele, supostamente envolvidos na trama.
Mensagens por WhatsApp e áudios mostram, na avaliação dos promotores do Gaeco – braço do Ministério Público estadual que combate o crime organizado –, o grau de envolvimento de Felipinho com a organização criminosa que atemorizava gestões municipais para aquisição de livros da Avante, empresa com capital social de R$ 40 mil, fundada há menos de cinco anos.
Backup de iCloud revela diálogos
O afastamento do sigilo telemático da conta iCloud de Felipinho, vinculada ao seu e-mail, descortinou o backup de áudios do WhatsApp, reforçando a atividade intensa do empresário na Editora Avante e seu vínculo direto com o empresário Francisco Anizio dos Santos, também investigado. O conteúdo faz referências expressas a outros envolvidos, inclusive o advogado Gabriel Taquino, que atuava como “representante comercial” da Avante.
“Fala Felipinho bom dia, bom dia, hoje é dia hein você quer fazer a listinha das coisas eu tenho na cabeça aqui tem que pegar aquela galera da campanha lá ver se consegue mais serviço né”, disse um parceiro não identificado. “E também receber aquela diferença que falta que aquilo lá é dinheirinho no bolso (...) Vamos ver se a gente consegue um servicinho essa semana né, duro aqui (...) eu vou ver se vou conversar com uma amiga minha que tem as prefeituras na mão também para ver se ela consegue serviço para nós tá bom.”
Negociações com seis cidades
Em seguida, Felipinho Jafar fez contato com o empresário Anízio: “Bom dia mestre tudo bem Anízio. Cara você me desculpa eu sou um cara meio afobado, meio ansioso aí, eu vou correndo para lá correndo para cá.” Em outro diálogo, ele revela a volúpia e o alcance do esquema: “Boa noite, Anízio, estou em negociação sim com seis cidades e aquele pessoal lá de Santa Rita que eu tinha te falado aí aquela cidadezinha para lá do consórcio deles.”
Um outro trecho indica que o grupo estava em vias de ampliar seus tentáculos: “Vamos trabalhar junto aí que eu tô, eu tenho um networking muito bom cara, principalmente, para fora do Estado. É melhor do que aqui dentro do Estado, então a gente conversar aí eu acho que dá para montar um time massa aí e a gente fazer um negócio legal tá bom.”
Laranja na editora
A Promotoria ressalta que Rhayane Souza Fanaia, funcionária de uma clínica de estética, constava como proprietária da editora Avante, mas na prática seria uma “laranja” da organização. A análise dos dados telemáticos evidenciou que Rhayanne não tinha autonomia gerencial ou financeira, tendo a missão de emprestar seu nome ao grupo, receber e distribuir os montantes a mando dos verdadeiros donos, a família de Rossana Jafar.
A própria Rhayanne recebia parte dos valores, comprovam as mensagens. A sistemática revelada pela investigação diz que a empresa recebia o pagamento do ente público municipal e, ato contínuo, os líderes determinavam a quem e quanto Rhayanne deveria repassar, “retroalimentando assim o esquema criminoso”, anota a Promotoria.
Transferências e valores
Os investigadores descobriram Felipinho trocando informações bancárias com Rhayane Fanaia em 18 de agosto de 2022, “para viabilizar o recebimento de valores, tão logo foi efetivado o pagamento pelo ente municipal na conta da Editora Avante”. Em uma oportunidade, ele recebeu R$ 570 mil.
A família Jafar era detentora da antiga editora Alvorada que, depois de ser citada em outro escândalo de corrupção em Mato Grosso do Sul, mudou o nome para Avante, com endereço formal em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Entre 2022 e 2024, a editora expandiu seus negócios por quase duas dezenas de administrações municipais.
Ameaças a prefeitos e secretários
Os promotores do Gaeco descobriram que prefeitos e secretários de Educação eram ameaçados para ajustar negócio com a Avante, caso contrário seriam punidos com retaliações graves do então coordenador de regulação da Secretaria da Saúde do Estado, Ed Carlo Brito Burgatt. Quem não fechasse com a Avante, Ed Carlo submetia a retaliações, negando fornecimento de leitos, exames, ressonâncias e cirurgias.
Diálogos revelam controle sobre cidades
Em uma mensagem, Felipinho informou ao empresário Heyder Bartiz, também alvo da Operação Gutemberg: “Fizemos um procedimento que o Heyder mandou tudo certinho nessas cidades aí né que você tá falando. A gente fez tudo certinho, vamos lá conversando com o pessoal, a semente quem plantou foi a gente, então, tipo assim, sem discussão isso não tem discussão essas daí são nossas.”



