Famílias lutam na Justiça por medicamento suspenso contra distrofia muscular
Famílias lutam na Justiça por medicamento suspenso para Duchenne

Famílias de pelo menos quatro crianças com Distrofia Muscular de Duchenne (DMD) em cidades do interior de São Paulo enfrentam uma batalha judicial para obter o medicamento Elevidys, suspenso pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) há 11 meses. A doença genética rara e progressiva afeta exclusivamente meninos, causando degeneração muscular irreversível. O remédio, que pode alterar o curso da doença, é a única terapia gênica aprovada no mundo, mas seu uso no Brasil foi interrompido em julho de 2025 após relatos de efeitos colaterais graves, incluindo mortes fora da faixa etária indicada.

O drama de José Marcelo e a esperança na terapia gênica

Em São José do Rio Preto, José Marcelo, diagnosticado antes dos quatro anos, é uma das crianças que aguardam o medicamento. Sua mãe, Ana Eliza de Carvalho Ártico, relata o impacto do diagnóstico: “Foi tudo novo, um mundo novo, das terapias, de estudar a realidade, entender ele e não comparar com outras crianças, é tudo no tempo dele”. A doença decorre da ausência da distrofina, proteína essencial para os músculos, devido a uma mutação no cromossomo X. A médica Agnes Cristina Fett Conte, da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp), explica que, por terem apenas um cromossomo X, os meninos são mais vulneráveis: “As meninas têm dois X; mesmo que um gene DMD esteja mutado, o outro normal contrabalança. Já os meninos têm um X só”.

O custo do Elevidys chega a R$ 17 milhões, e as famílias precisam recorrer à Justiça para obtê-lo. Para José Marcelo, o pai Marcel Melon expressa a angústia: “A gente tinha esperança de que ele tomasse no comecinho, antes dos quatro anos. A bula é de quatro a sete anos. Torcemos para que a Anvisa reconsidere e ele tome logo, para preservar a musculatura”.

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Arthur, de Sorocaba: o tempo corre contra

Em Sorocaba, Arthur Jordão Lara, de sete anos, tem menos de um ano para receber o remédio dentro da faixa etária permitida. A família conseguiu na Justiça o fornecimento, mas a aplicação nunca foi feita devido à suspensão. A mãe, Natália Jordão, desabafa: “Não posso falar para meu filho: ‘Duchenne, espera aí que a Anvisa está analisando’. A melhor medicação é a que existe hoje, só o Elevidys. O que temos que fazer? Aplicar. Senão ele tem uma sentença de morte”. Natália perdeu o irmão Ricardinho para a mesma doença em 2012, aos 20 anos, e lembra: “Ele disse que acreditava na cura, mas que não seria para ele, e sim para o próximo. Esse próximo é meu filho”. O caso de Arthur foi destaque em audiência na Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência da Câmara dos Deputados, em 16 de abril, onde a família esteve presente.

Irmãos de Bauru e a luta coletiva

Em Bauru, os irmãos Raul, de 4 anos, e Arthur, de 6, também têm DMD. A rotina inclui remédios, suplementos e fisioterapia para retardar a degeneração. Os pais, Alexandre e Graciele Morcelli, participaram da audiência em Brasília. “Essa ação faz a Anvisa tomar consciência de que é preciso retirar a suspensão”, afirma o servidor público. Em 2024, a família entrou com ação judicial, mas o processo ainda não teve definição. “Buscamos a única terapia gênica do mundo aprovada até hoje”, reforça a mãe.

Na audiência, o representante da Anvisa, João Batista Júnior, gerente da Gerência de Sangue, Tecidos, Células e Órgãos e Produtos de Terapias Avançadas (GSTCO), informou que a empresa detentora do registro ainda não apresentou todos os dados previstos no Termo de Compromisso para o registro excepcional, havendo lacunas sobre segurança e eficácia de longo prazo.

Enrico, de Minas Gerais: exemplo de sucesso

Enrico Cavalcante, de 7 anos, de Minas Gerais, foi a primeira criança brasileira a receber o Elevidys. Antes, tinha dificuldade para subir escadas; hoje, corre, brinca e nada sem restrições. O pai, Erick Cavalcante, criou uma associação de apoio e defende a liberação: “Com políticas públicas, é possível garantir um futuro melhor para essas crianças”.

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Luta na Justiça se amplia para outros medicamentos

Segundo o Conselho Nacional de Justiça, mais de 300 processos relacionados a pedidos de medicamentos estão pendentes. Só em 2025, quase 100 novas ações foram protocoladas. A batalha não se restringe à Duchenne. Em Presidente Prudente, Amanda Gutierrez busca na Justiça o Lorlatinib, para câncer raro de pulmão, que custa R$ 40 mil a caixa. “É crucial para minha vida”, diz. Sem apoio oficial, ela e o marido recorrem a vaquinhas e rifas. Amanda já gastou mais de R$ 350 mil com outro medicamento, o Alectinib, que perdeu eficácia. “Não tem sido fácil. O amor tem fluído muito, a bondade das pessoas nos sustenta”, conclui.