Desvio de R$ 150 milhões no IRM: contratos irregulares e abandono de fiscalização
Desvio no IRM: contratos irregulares e abandono de fiscalização

Diagnóstico da nova gestão aponta 70% de irregularidades em contratos

Ao assumir interinamente a presidência do Instituto Rio Metrópole (IRM) neste mês, o delegado Roberto Leão revelou que 70% dos contratos analisados até agora apresentam irregularidades. O órgão, criado para articular soluções conjuntas entre prefeituras e o governo do estado, foi tomado por um esquema de desvio de recursos públicos que, segundo o Ministério Público do Rio (MPRJ), movimentou R$ 86 milhões entre 2022 e 2026. A nova gestão já atualizou esse valor para R$ 150 milhões.

Abandono do monitoramento do Arco Metropolitano

Em 2016, a Câmara Metropolitana de Integração Governamental mantinha um sistema de monitoramento por drone do Arco Metropolitano, via que atravessa cinco municípios da Baixada Fluminense: Itaguaí, Seropédica, Japeri, Nova Iguaçu e Duque de Caxias. Reuniões mensais de representantes das polícias e secretários de Urbanismo e Infraestrutura identificavam irregularidades e ocupações ilegais nas margens. Com a substituição da Câmara pelo IRM, o sistema foi abandonado. Atualmente, quase todos os painéis solares da iluminação da via foram furtados, segundo o arquiteto e urbanista Vicente Loureiro, novo responsável pela área técnica do instituto.

Loureiro, que esteve à frente da Câmara Metropolitana desde sua criação em 2014, afirmou que o IRM se afastou de sua missão original. "Essas decisões importantes não podem ser tomadas por assessores. Os prefeitos da Região Metropolitana não se reúnem desde a votação que aprovou a concessão da Cedae, em 2020", comentou.

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Esquema de desvio: contratações fraudadas e retiradas em espécie

Segundo a denúncia do MPRJ, o ex-presidente do IRM, Davi Perini Vermelho (conhecido como Didê), era o chefe da organização criminosa. Ele autorizava contratações, assinava acordos e controlava pagamentos que seriam desviados. O diretor de Planejamento e Projetos, Maurício Silva Knoploch dos Santos, usava sua posição na Comissão Técnica de Licitação para direcionar escolhas de empresas. O delegado Franquis Dias Nepomuceno, então diretor de Desenvolvimento Metropolitano Integrado, era o ordenador de despesas e controlava uma empresa de segurança armada que escoltava Caroline Soares Barros, funcionária comissionada e dona do Instituto Bio. Caroline fez 13 retiradas em espécie, entre maio de 2025 e janeiro de 2026, totalizando R$ 3,02 milhões, sempre escoltada pela empresa de Nepomuceno. Os investigados negam as acusações.

Orçamento explodiu de R$ 7,3 milhões para R$ 161,1 milhões

A autarquia foi criada durante a intervenção federal no Rio, em dezembro de 2018, mas só começou a funcionar efetivamente no fim de 2019. Após a concessão dos serviços da Cedae em 2021, o orçamento do IRM foi ampliado com 0,5% da receita das contas de água e esgoto da Região Metropolitana. Em 2023, o governador Cláudio Castro sancionou lei permitindo que o instituto executasse obras e intervenções urbanas. O grande salto ocorreu em 2024: as despesas pularam de R$ 7,3 milhões para R$ 161,1 milhões.

A promotora Roberta Jorio, do Grupo de Atuação Especializada de Defesa da Integridade e Repressão à Sonegação Fiscal (Gaesf), explicou: "Os acusados não temiam o controle porque eram o controle: quem licitava, quem opinava, quem contratava, quem fiscalizava e quem recebia integrava o mesmo grupo. E foi essa certeza de impunidade que permitiu que o produto do crime circulasse em espécie aos milhões."

Vazio de coordenação e obras locais sem planejamento metropolitano

De acordo com as investigações, durante o governo Cláudio Castro o IRM passou a executar obras de interesse estritamente local, como pavimentação de ruas, enquanto o Conselho Deliberativo, que deveria reunir prefeitos e o governador, foi esvaziado e ocupado por representantes de escalões inferiores. Vicente Loureiro destacou o impacto desse vácuo: "O ramal ferroviário de Belford Roxo, que atravessa São João de Meriti e o Rio, chegou a transportar mais de 150 mil passageiros por dia no início dos anos 1990, cerca de 15% da demanda do sistema de trens, e hoje carrega uma fração disso, resultado, entre outros fatores, da ocupação irregular da faixa de domínio."

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Três eixos de trabalho da nova direção

O delegado Roberto Leão definiu três prioridades: devolver ao IRM sua função institucional original, sem distorções como obras locais; reunir planos técnicos existentes e preparar uma agenda objetiva para o próximo governador, com metas de curto, médio e longo prazos; e fazer o levantamento dos passivos contratuais que motivaram a operação do Gaesf. Uma auditoria especial analisará todos os acordos firmados, subsidiando novas etapas da investigação. Representantes do governo e da Promotoria se reuniram para alinhar atuação conjunta e apurar possíveis casos de enriquecimento ilícito.

O IRM foi criado para articular soluções conjuntas entre prefeituras e o estado em temas como mobilidade, saneamento, meio ambiente, tecnologia e habitação. Segundo Leão, "o instituto fugiu totalmente de sua missão de promover o intercâmbio entre prefeituras e estado, realizando melhorias urbanas. Nos últimos três anos, pelo menos, os acusados que estiveram à frente da autarquia a usaram como um entreposto de desvio de dinheiro público."