O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) afirmou nesta quinta-feira (23) que a Voepass possuía uma 'cultura de normalização de desvios' em suas condutas operacionais. A declaração foi feita pelo tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, investigador do Cenipa, durante a apresentação do relatório final sobre a queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP), acidente que matou 62 pessoas em agosto de 2024. O g1 solicitou posicionamento à Voepass e aguarda retorno.
O que diz o relatório final do Cenipa
O relatório final reúne as conclusões da investigação técnica conduzida pela Força Aérea Brasileira (FAB) para identificar os fatores que contribuíram para o acidente. Os investigadores analisaram o conteúdo das duas caixas-pretas (gravador de voz da cabine e gravador de dados de voo) e as condições meteorológicas registradas no dia do acidente. Também realizaram exames nos motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol.
Em agosto de 2024, um mês após o acidente, o Cenipa divulgou um relatório preliminar que já indicava que, menos de dois minutos antes da queda do ATR, um alerta na cabine avisou a tripulação de que o gelo prejudicava o desempenho da aeronave, e os pilotos comentaram sobre um problema no sistema antigelo logo no início do voo.
Análises realizadas pelo Cenipa
Ao longo da investigação, o órgão realizou dezenas de perícias para reconstruir o voo e entender a sequência de eventos que levou à queda. Entre os principais trabalhos estão: análise das duas caixas-pretas; reconstrução completa do voo, incluindo comandos dos pilotos e alertas da aeronave; exames nos motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol; análise das condições meteorológicas; entrevistas com pilotos, mecânicos, despachantes e familiares dos tripulantes; estudo de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da mesma frota; testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500; análise de registros de manutenção, certificados médicos dos pilotos e outros documentos técnicos. Segundo o Cenipa, também foram analisados equipamentos de controle de diferentes sistemas e até as lâmpadas dos painéis para verificar quais estavam acesas no momento da queda.
Revisão internacional e caráter preventivo
Antes da divulgação, o relatório passou pelas etapas previstas no protocolo internacional para investigações de acidentes aeronáuticos. O documento foi analisado pelo Bureau d'Enquêtes et d'Analyses pour la Sécurité de l'Aviation Civile (BEA), da França, país responsável pelo projeto e fabricação do ATR 72-500, e pelo Transportation Safety Board (TSB), do Canadá, responsável pelo projeto dos motores. O relatório não aponta culpados, pois a investigação do Cenipa tem caráter preventivo, buscando identificar fatores contribuintes e emitir recomendações para aumentar a segurança da aviação, sem definir responsabilidades civis ou criminais.
Investigação criminal e ação judicial
Paralelamente, a Polícia Federal conduz um inquérito para apurar se houve crimes e eventuais responsáveis. No fim de junho, representantes das famílias tiveram acesso pela primeira vez à transcrição das conversas da cabine, que integra o laudo do Instituto Nacional de Criminalística (INC). Segundo advogados das famílias, a expectativa é que a PF conclua o inquérito em breve e encaminhe o caso ao Ministério Público Federal (MPF). Após a conclusão, as famílias pretendem ingressar com uma ação coletiva de responsabilidade civil por danos morais. Segundo o advogado Leonardo Amarante, a medida não substitui as ações individuais de indenização já em andamento e busca responsabilizar empresas, pessoas físicas e instituições que tenham contribuído para a tragédia.
Relembre o acidente
O acidente ocorreu em 9 de agosto de 2024. O ATR 72-500, matrícula PS-VPB, fazia o voo entre Cascavel (PR) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) quando caiu no quintal de uma casa em um condomínio em Vinhedo (SP). As 62 pessoas a bordo – 58 passageiros e quatro tripulantes – morreram. Nenhum morador da residência atingida ficou ferido. Foi o acidente mais grave da aviação brasileira desde o desastre com o voo da TAM, em 2007.
Posicionamento da Voepass
Em nota, a Voepass afirmou que a queda do voo 2283 foi 'o episódio mais difícil' de sua história e disse que continua prestando apoio psicológico às famílias. A empresa declarou que colaborou com as investigações desde o início, reafirmou que sua frota 'sempre esteve aeronavegável e apta a realizar voos' conforme padrões internacionais, e sustentou que apenas o relatório final do Cenipa poderá apontar, de forma conclusiva, as causas do acidente.



