Lançado no Brasil em junho pela editora Malê, o livro "Candeia – O samba, o Quilombo e o ativismo negro", do pesquisador norte-americano Stephen Bocskay, já se impõe como título essencial para a compreensão da ideologia, da personalidade do legado e das contradições do sambista Antonio Candeia Filho (1935–1978). Mais um ensaio antropológico do que uma biografia, a obra questiona teses sobre o artista, como a fama de ter sido intransigente e até truculento no exercício da atividade policial.
Os tiros que mudaram a história
Na madrugada de 13 de dezembro de 1965, cinco tiros disparados contra Candeia nas proximidades da Marquês de Sapucaí – avenida que se tornaria o palco do Carnaval carioca a partir de 1984 – atingiram o alvo e mudaram o curso da história do sambista e policial carioca, então com 30 anos e recentemente aprovado em concurso público para se tornar oficial de justiça. Feitos por um italiano que logo embarcou para o país natal para fugir da provável prisão pelo crime, resultante de ação passional em acidente de trânsito em que Candeia estava bêbado, os disparos deixaram o cantor e compositor em estado de coma e, depois, em cadeira de rodas que o acompanhou pelo resto da vida, encerrada 13 anos depois.
Obra-prima do samba e ativismo
Mal sabia Candeia que, nesses 13 anos restantes, ele desenvolveria uma militância e se firmaria como um dos mais altos partidos do samba, compondo obras-primas como "Dia de graça" (1970), "Filosofia do samba" (1971), "Luz da inspiração" (1975), "O mar serenou" (1975), "Preciso me encontrar" (1976), "Testamento de partideiro" (1976) e "Zé Tambozeiro" (1978). A matéria-prima do livro é o debate sobre o ativismo de Candeia ao fundar o grêmio recreativo de arte negra e escola de samba Quilombo – agremiação dissidente que se opunha à crescente comercialização do Carnaval – e ao se posicionar sobre a proliferação dos bailes black pela cidade do Rio de Janeiro, onde milhares de jovens negros dançavam ao som da música negra norte-americana nos anos 1970, movimento posteriormente intitulado Black Rio.
Complexidade do ativismo
É quando a narrativa expõe a complexidade do exercício cotidiano do ativismo de Candeia. Defensor arraigado do nacionalismo e das tradições do samba, Candeia foi refratário ao crescimento da música black norte-americana no universo da juventude carioca e, como morreu cedo, em 1978, não teve tempo de rever os conceitos. Stephen Bocskay torna o debate mais curioso ao defender a tese de que, na discografia de Candeia, há diálogos do samba com a soul music e com a música afro-cubana.
O policial contraditório
Sem negar a quentura do temperamento de Candeia, artista também reconhecido pela vaidade, Bocskay ressalta que Candeia continuou popular na Portela (agremiação na qual ingressara ainda na adolescência) e em outras escolas de samba enquanto trabalhou como policial. O autor inclusive expõe a visão da filha do sambista, Selma Candeia, que defendeu em depoimento ao autor que "a aura de policial severo do pai tinha sido alimentada por quem esperava que, em vez de aplicar a lei, Candeia fosse ser conivente com infrações e delitos praticados em comunidades patrulhadas pelo policial".
Bastidores do Quilombo e fontes
No livro, Bocskay descortina os bastidores da escola de samba Quilombo com conhecimento de quem esmiuçou o tema. Com prefácio de Muniz Sodré e orelha da capa assinada por Luiz Antonio Simas, a obra é desdobramento de tese de doutorado defendida por Bocskay em universidade dos Estados Unidos – o que explica a narrativa bem fundamentada e repleta de referências e citações. As entrevistas com personalidades do samba e do movimento Black Rio – como Dona Ivone Lara (1922–2018), Dom Filó (DJ de quem Candeia foi amigo e com quem criou o projeto Brafro, tentativa de unir dois movimentos musicais através da conscientização do povo negro), Elton Medeiros (1930–2019) e Martinho da Vila – contribuem para que o autor monte perfil crível de Candeia, sem endeusamento, mas evidenciando a importância da militância do sambista e policial (ofício que Candeia exerceu por questão de sobrevivência, e não por gosto) que marcou posição e, entre o tamborim e o revólver, fez da vida e da obra um ato político, deixando um pensamento importante na construção da consciência negra ativista.



