Trump reabre debate sobre fim dos relatórios trimestrais nos EUA
Trump reabre debate sobre fim dos relatórios trimestrais

Em seu primeiro mandato, o presidente Donald Trump já havia defendido o fim das divulgações trimestrais obrigatórias para companhias de capital aberto. Agora, em seu segundo mandato, ele reabriu o debate, sugerindo que a medida poderia reduzir a miopia gerencial e o curto-prazismo corporativo. Em setembro de 2025, Paul Atkins, presidente da SEC, reforçou a proposta em artigo no Financial Times, afirmando que o governo deveria eliminar regulações desnecessárias e que o mercado deveria decidir a frequência dos relatórios.

O debate sobre curto-prazismo

As causas e consequências do curto-prazismo são amplamente discutidas por acadêmicos, comentaristas, legisladores e profissionais do mercado. Figuras como Jamie Dimon (CEO do JPMorgan) e Warren Buffett (ex-CEO da Berkshire Hathaway) já criticaram publicamente essa cultura. Uma pesquisa de 2004 com executivos financeiros mostrou que metade deles estaria disposta a abandonar projetos com Valor Presente Líquido (VPL) positivo para não frustrar as expectativas dos analistas no trimestre.

Impactos dos relatórios trimestrais

Embora haja consenso de que estratégias míopes prejudicam investidores e empresas, não está claro se acabar com os relatórios trimestrais é a melhor solução. Esses relatórios e o guidance de lucros, apontados como indutores do curto-prazismo, também estão associados a maior cobertura de analistas, maior liquidez das ações, mais transparência e menor volatilidade – fatores que reduzem o custo de capital. Menor frequência de divulgação pode aumentar a assimetria de informações e o risco de insider trading.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Experiências internacionais

O Reino Unido e a Europa oferecem experimentos naturais. Em 2014, reguladores locais encerraram a obrigatoriedade dos relatórios trimestrais. No Reino Unido, as empresas não aumentaram seus gastos com CapEx ou P&D, como seria esperado se os relatórios trimestrais induzissem gestão de curto prazo.

O que é longo prazo?

Se a proposta é encerrar os resultados trimestrais para reduzir o curto-prazismo, cabe questionar se um período adicional de três meses entre divulgações seria suficiente para engajar a administração em objetivos mais duradouros. Em média, empresas americanas recuperam o capital investido em cerca de cinco anos. Quanto mais longo o payback, menos relevante é uma mudança de três meses no calendário. Os gestores ainda poderiam priorizar resultados de curto prazo, agora definido como seis meses em vez de três.

Alternativas aos relatórios trimestrais

Os resultados trimestrais não deveriam ser os únicos culpados pela miopia corporativa. Métodos alternativos, menos prejudiciais, já foram propostos. O mais impactante seria estender a duração média da remuneração executiva (bônus em dinheiro e stock options), hoje em torno de um ano. Uma remuneração atrelada a ciclos de 12 meses desalinhada com o horizonte de retorno dos investidores pode induzir manipulação de resultados no curto prazo.

Trade-offs e conclusão

Este artigo não discute o quanto a miopia corporativa é prejudicial, mas pondera se uma divulgação menos frequente ajudaria ou prejudicaria o mercado. Reduzir a frequência pode diminuir liquidez, transparência e aumentar volatilidade e custo de capital. Por outro lado, não está claro se isso reduziria os incentivos de curto prazo da administração. Diante desses trade-offs e da existência de mecanismos que alinham melhor os incentivos – sem prejudicar liquidez e transparência –, qualquer mudança regulatória deve ser precedida de mais reflexão e evidência empírica.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar