A operação da Polícia Federal (PF) que teve como alvo o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), provocou desconforto entre aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas foi recebida com entusiasmo por integrantes do entorno do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O entorno do pré-candidato à Presidência viu a ação da PF como uma oportunidade de explorar politicamente o caso do Banco Master, ainda que com cautela diante das próprias relações de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, que vieram à tona no caso do filme Dark Horse.
Reservadamente, governistas admitem que a operação cria um problema político para o Planalto ao atingir um dos quadros mais importantes do governo no Congresso justamente em uma investigação que vinha sendo usada por aliados de Lula para desgastar adversários. A avaliação é que a entrada de Jaques Wagner no caso dificulta a tentativa de associar o escândalo exclusivamente a personagens da oposição.
Aliados do governo argumentam que há diferenças entre o grau de envolvimento atribuído aos diversos investigados. Ainda assim, reconhecem que a operação contra Wagner reforça a percepção de que o caso atingiu diferentes grupos políticos. Na avaliação de um interlocutor governista, a investigação alimenta uma disputa de narrativas sobre quem estaria mais comprometido pelas apurações, mas acaba colocando todos os personagens envolvidos no 'mesmo saco' perante a opinião pública.
Repercussão política
A preocupação é especialmente grande porque, nas últimas semanas, governistas vinham explorando politicamente o caso Master para atacar Flávio Bolsonaro, principal rival do PT nas eleições de outubro. O senador passou a ser alvo frequente de críticas após as revelações sobre sua atuação na busca de recursos junto ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar o filme Dark Horse, produção sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Nos bastidores, integrantes do PT reconhecem que o episódio teve impacto político para Flávio e ajudou a desgastar sua pré-campanha. Pesquisas divulgadas após a revelação do caso apontaram queda do senador nas intenções de voto, alimentando a percepção de que o tema havia se tornado um dos principais pontos vulneráveis de sua candidatura.
Interlocutores de Flávio afirmam que o tema continua delicado para o senador, que ainda enfrenta desgaste em decorrência da ligação de seu nome com o de Vorcaro. Ainda assim, avaliam que agora, pelo menos, ficou 'mais fácil' discutir o assunto publicamente depois que a investigação passou a atingir também um dos nomes mais próximos de Lula. Na visão desses aliados, a inclusão de Jaques Wagner na investigação enfraquece o discurso de que o caso Master estaria restrito ao entorno bolsonarista. Eles ressaltam que o senador baiano é aliado histórico de Lula, participou de seus governos, comandou ministérios e hoje ocupa a liderança do governo no Senado, sendo considerado um dos principais homens de confiança do presidente.
O próprio Flávio procurou explorar politicamente a operação poucas horas após a ação da PF. Em publicação nas redes sociais, o senador associou o caso ao governo Lula e voltou a defender a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o Banco Master. 'Escândalo envolvendo o PT é como a incompetência do governo Lula: não tem como esconder. CPMI do Banco Master já!', escreveu o parlamentar no X.
A defesa da CPI tem sido utilizada por parlamentares da oposição como forma de manter o caso em evidência no debate político. A instalação da comissão, no entanto, depende de decisão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que já sinalizou em diversas ocasiões que não pretende dar andamento ao pedido.
Defesa de Jaques Wagner
Publicamente, aliados do senador petista passaram a minimizar o caso e defendê-lo. O presidente nacional do PT, Edinho Silva, saiu em defesa do senador e afirmou que o partido mantém confiança em Wagner. 'O senador Jaques Wagner é depositário de toda a nossa confiança. Apoiamos todas as apurações envolvendo o Banco Master, a sociedade tem o direito de saber a verdade. Os crimes cometidos precisam ser apurados e os responsáveis penalizados. Nesse processo de investigação e apuração, temos confiança que o Jaques Wagner esclarecerá todos os fatos, comprovando a sua inocência', disse em nota.
O mesmo ocorre no Congresso, com deputados que rejeitam a comparação do suposto envolvimento de Jaques com o que já foi revelado no caso Dark Horse. 'Confiamos no Jaques e não se pode comparar ele com Flávio Bolsonaro. Não tenho dúvida que Jaques dará as devidas explicações. E Flávio tem que continuar se explicando, afinal de contas, pediu dinheiro ao dono do Master', disse o deputado Alencar Santana (PT-SP).
Nesta mesma manhã, também estava prevista a realização de uma sessão conjunta do Congresso para analisar vetos do presidente Lula, que foi cancelada por Alcolumbre depois da operação que mirou o senador do PT. Ao anunciar o cancelamento da sessão, o presidente do Senado também comentou as ações da PF e criticou o que chamou de 'execração pública'. Segundo o chefe do Legislativo, ninguém pode ser condenado antes do fim da tramitação do processo. 'Muitas autoridades já foram vítimas dessa execração pública e no passar do tempo a maioria delas provou, no decorrer das investigações, a sua inocência. Temos um problema gravíssimo no Brasil. Está todo mundo culpado até que se prove o contrário. Isso é muito triste, todo mundo é culpado antes de ser julgado', disse.
Detalhes da operação
A ação da PF teve como alvo Jaques Wagner no âmbito das investigações relacionadas ao Banco Master, na nona fase da operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. O senador é líder do governo no Senado e ocupa posição estratégica na articulação política do Palácio do Planalto no Congresso Nacional. Durante ações de busca e apreensão, foi apreendido um montante de US$ 49 mil (o equivalente a R$ 253 mil na cotação atual) em espécie em um endereço ligado ao senador em Brasília.
Segundo a decisão de Mendonça, Wagner foi o 'beneficiário central' de 'vantagens econômicas' pagas por integrantes do Banco Master em troca da sua atuação no Congresso Nacional em prol da instituição financeira. Entre esses benefícios identificados pela PF, estão pagamentos de um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador, o uso de aeronaves particulares e ingressos para um show em Los Angeles que teria custado R$ 63,3 mil.



