O editor do New York Times, A.G. Sulzberger, fez um alerta contundente sobre os impactos da inteligência artificial no jornalismo durante um evento internacional. Em discurso, ele destacou que, desde o lançamento do ChatGPT há menos de quatro anos, a IA generativa se tornou uma das tecnologias mais disruptivas da história, mas alertou para os riscos que representa para o jornalismo original.
Ameaça ao jornalismo original
Sulzberger afirmou que as empresas de IA estão consolidando controle desproporcional sobre dados e atenção do público, enquanto evitam responsabilidades. Ele classificou como "roubo descarado" a prática de usar conteúdo jornalístico sem permissão ou compensação, o que ameaça a viabilidade do jornalismo investigativo e de reportagens originais.
"Os gigantes da tecnologia vasculham sites de notícias sem permissão e sem compensação. Reempacotam o material roubado como se fosse seu, desviando o público e a receita que deveriam ir para as organizações jornalísticas", disse.
Impactos econômicos e sociais
O editor destacou que as profissões criativas empregam mais de 50 milhões de pessoas globalmente e geram cerca de US$ 12 trilhões por ano. No entanto, as empresas de IA, avaliadas em conjunto em US$ 11 trilhões, investem menos de 0,5% desse valor em compensação aos criadores de conteúdo.
Ele também alertou para a queda no tráfego de sites de notícias, que já registra reduções médias de 45% nos últimos quatro anos, e para o aumento da desinformação, com assistentes de IA distorcendo notícias em quase metade das respostas.
O caso do New York Times
Sulzberger mencionou que o Times processou OpenAI, Microsoft e Perplexity por violação de direitos autorais. A empresa gastou mais de US$ 2 bilhões em 2025 para produzir quase meio milhão de obras originais, enquanto as empresas de IA usam esse conteúdo sem pagar.
"O valor distintivo do jornalismo do Times foi reafirmado pela preferência das empresas de IA por ele. No entanto, elas argumentam que não devem pagar por isso", criticou.
Quatro ingredientes da IA
O editor explicou que os modelos de IA dependem de talento, computação, energia e dados. Enquanto os três primeiros são pagos, os dados – incluindo conteúdo protegido por direitos autorais – são tomados sem consentimento. "Nenhum CEO de tecnologia ousaria sugerir que engenheiros trabalhem de graça, mas fazem exatamente isso com os criadores de conteúdo", afirmou.
O que fazer
Sulzberger propôs ações para organizações de notícias: defender direitos de propriedade intelectual, negociar acordos com cuidado, pressionar legisladores e unir-se a outras indústrias criativas. Ele também recomendou usar a IA de forma responsável, focar em jornalismo original e explicar ao público por que o jornalismo é valioso.
"A internet já está sobrecarregada de bots e lixo digital. As organizações de notícias devem se posicionar como a alternativa confiável nesse caos", concluiu.



