Meta de inflação deve ser debatida, diz Aloísio Araújo
Meta de inflação deve ser debatida, diz Aloísio Araújo

O economista Aloísio Araújo, ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), defendeu que o governo federal promova um debate amplo e transparente sobre a meta de inflação. Em entrevista ao Valor, ele afirmou que a meta atual, de 3,25% para 2026, pode não ser a mais adequada diante das condições econômicas do país.

Contexto da declaração

Aloísio Araújo participou de um seminário sobre política monetária em Brasília, onde destacou a necessidade de revisão periódica das metas. Segundo ele, o regime de metas de inflação, adotado desde 1999, já passou por ajustes, mas o momento atual exige uma discussão mais aprofundada. “A meta de inflação deve ser debatida com a sociedade, com o Congresso e com o mercado, para que haja alinhamento de expectativas”, disse.

Críticas ao modelo atual

O economista criticou a rigidez do sistema atual, que, em sua opinião, pode levar a uma política monetária excessivamente contracionista. Ele lembrou que a inflação medida pelo IPCA acumulada em 12 meses está em 4,5%, acima do centro da meta de 3,25%, mas dentro do intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual. “Não se trata de abandonar o regime, mas de ajustá-lo para que seja mais crível e eficaz”, explicou.

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Aloísio Araújo também mencionou a experiência internacional, citando países como o Chile e o México, que realizam revisões periódicas de suas metas. “O Brasil precisa modernizar seu arcabouço, sem perder a credibilidade conquistada ao longo dos anos”, afirmou.

Reações do mercado

A declaração ocorre em um momento de tensão no mercado financeiro, com expectativas de alta da Selic. O Comitê de Política Monetária (Copom) já sinalizou que pode elevar os juros básicos na próxima reunião, em agosto, para conter pressões inflacionárias. Analistas consultados pelo Valor veem com cautela a proposta de debate, mas reconhecem que ela pode trazer benefícios de longo prazo.

“O debate é saudável, desde que não gere incertezas adicionais”, ponderou o economista-chefe de um banco, que preferiu não se identificar. Para ele, a meta atual já é bem ancorada, mas a discussão pode ajudar a ajustar as expectativas para os próximos anos.

Próximos passos

Aloísio Araújo sugeriu que o governo crie um grupo de trabalho com representantes do Ministério da Fazenda, do Banco Central e de instituições acadêmicas para avaliar a meta. Ele também defendeu que o debate inclua a possibilidade de uma meta contínua, em vez de anual, como forma de reduzir a volatilidade das expectativas.

O economista acredita que, sem a discussão, o país corre o risco de repetir erros do passado, quando metas inflexíveis levaram a ciclos de aperto e afrouxamento monetário descoordenados. “Precisamos de uma meta que seja desafiadora, mas factível, e que reflita a realidade da economia brasileira”, concluiu.

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