O economista José Roberto Mendonça de Barros, ex-secretário de Política Econômica e sócio-fundador da MB Associados, avalia que, caso seja reeleito, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva provavelmente encaminhará algum ajuste nas contas públicas em seu quarto mandato. Segundo ele, sem avançar nessa questão, “já pega fogo na mão dele no primeiro ano”. A análise foi feita em entrevista ao Estadão.
Pragmatismo de Lula e necessidade de ajuste
Mendonça de Barros destaca que Lula “não vai ser nunca um cidadão que vai acreditar nas virtudes de um ajuste fiscal”, mas seu pragmatismo o levaria a reconhecer a urgência de equilibrar as contas. “Ele é inteligente o suficiente para saber que não vai dar para entrar com esse mesmo discurso distributivista”, afirmou. O economista sugere que o ajuste ideal seria de 3% do Produto Interno Bruto (PIB), mas, dada a dificuldade política, considera viável algo em torno de 2% do PIB.
Medidas concretas propostas
Entre as medidas que Mendonça de Barros considera essenciais está a suspensão dos ganhos reais do salário mínimo por dois anos, além da desindexação das despesas com saúde e educação. “Precisa de um período de dois anos que se reajusta pela inflação e não dá ganho real, mesmo que seja o cenário de reeleição”, explicou. Ele também defende a revisão de cadastros de programas sociais, citando o exemplo dos seguros-defeso para pescadores: o IBGE registra cerca de 250 mil pescadores artesanais no Brasil, mas existem 1,4 milhão de bolsas ativas. “Estão todos estourados, todos furados. Estão sendo usados, em boa medida, para capturar voto, para fazer política de baixo escalão”, denunciou.
Governança e emendas parlamentares
O economista também critica as emendas parlamentares, que classifica como “uma corrupção cada vez mais grosseira”. Ele defende que o próximo governo, seja ele qual for, enfrente o problema das emendas e melhore as regras de governança pública. “Desculpe a expressão, mas é uma avacalhação o que virou esse negócio das emendas. É um disparate absoluto e que só tem no Brasil”, disse. Mendonça de Barros lembra que o Supremo Tribunal Federal (STF) já tenta impor limites, mas reforça que a solução precisa vir do Executivo e do Legislativo.
Transição eleitoral e cenário global
Mendonça de Barros classifica a eleição de 2026 como “uma eleição de transição”, já que “nós não teremos em 2030 os dois cabeças de chave dessa eleição por razões diferentes”. Ele alerta que, independentemente do resultado, o ajuste fiscal é urgente: “No ano que vem, vai ter de acontecer alguma coisa, senão vamos ver coisas muito mais complicadas”. O economista também aponta riscos globais, como inflação mais alta, juros elevados, possíveis choques no preço do petróleo e os efeitos do El Niño. “Tudo isso converge para 2027”, afirmou.
Quatro pilares a superar
Para Mendonça de Barros, o Brasil precisa superar quatro problemas estruturais: a deterioração da governança pública e privada, a crença no modelo petista de crescimento sustentado, o descontrole fiscal e a proteção excessiva à indústria nacional. “Está claro que a gente tem de superar tudo isso para poder ir adiante”, concluiu. Ele ressaltou que, se não houver um sinal mínimo de ajuste no primeiro ano de governo, “a primeira coisa que acontece é o câmbio desvalorizar muito”, o que alimentaria a inflação e forçaria um ajuste ainda mais duro. “É uma oportunidade, que eu não sei se vai ser percebida ou não”, finalizou.



