Mendonça de Barros vê cenário difícil para economia em 2027
Mendonça de Barros: cenário difícil para economia em 2027

Economia brasileira em desaceleração

O ex-secretário de Política Econômica e sócio-fundador da MB Associados, José Roberto Mendonça de Barros, projeta um cenário adverso para a economia brasileira em 2027. Em entrevista ao Estadão, ele estima que o Produto Interno Bruto (PIB) crescerá apenas 1% no próximo ano. "O ano que vem será dificílimo", afirma. "Baixo crescimento, pressão inflacionária, taxa de juros muito elevada."

Mendonça de Barros vê duas agendas prioritárias para o Brasil a partir de 2027: endereçar a questão fiscal e promover uma melhora da governança pública e privada. "Nós achamos que (melhorar a governança) é tão relevante quanto o ajuste fiscal", destaca. Ele alerta para o que chama de "jogo de roubar monte", referindo-se à deterioração das instituições.

Projeções para 2026 e 2027

Para o segundo semestre de 2026, o economista prevê uma desaceleração mais rápida do que a esperada. "Nós estamos vendo — ao contrário de vários colegas — que a economia neste segundo semestre vai desacelerar mais rapidamente", diz. Enquanto muitos analistas elevaram suas expectativas de PIB para 2026 para acima de 2%, Mendonça de Barros manteve sua projeção em 1,7% a 1,8%, argumentando que a política monetária restritiva dominará a expansão fiscal.

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"A política de juros está sendo muito ativa na direção de machucar as empresas", explica. Ele observa que o impacto dos juros altos sobre as pessoas jurídicas é forte, levando a um aumento de recuperações judiciais e extrajudiciais, especialmente no comércio. Para as famílias de baixa renda, o aperto financeiro é agravado pelo fenômeno das apostas online (bets), que reduz o consumo em supermercados.

Inflação e política monetária

Mendonça de Barros espera que a inflação fique um pouco acima de 5% em 2026, o que limitará a queda da Selic. "Mesmo que a Selic caia duas vezes 0,25 ponto porcentual, a gente terminaria o ano com 13,75%. É uma taxa gigantesca", ressalta. Para 2027, a inflação deve ser menor devido à atividade econômica mais fraca.

O câmbio, segundo ele, deve se manter na faixa de R$ 5,15 a R$ 5,20, sem grandes pressões, pois o mercado já precifica um cenário de reeleição. "O Brasil está relativamente bem na foto da balança comercial", completa.

Impacto das tarifas de Trump

Sobre as novas tarifas comerciais dos Estados Unidos, o economista avalia que o efeito macroeconômico é pequeno, mas prejudica setores como calçados, vestuário e móveis. "A participação dos EUA chegou a menos de 10% no comércio com o Brasil… E eu acho que vai consolidar isso", afirma.

Ajuste fiscal e governança

Para Mendonça de Barros, a situação fiscal em 2027 será "muito preocupante", com o mercado de títulos longos da dívida pública disfuncional e taxas reais de juros em 8%. Ele defende a necessidade de repensar o arcabouço fiscal, já que o atual "fez água definitivamente". "A moda é colocar para fora do arcabouço todos os tipos de despesa", critica.

Além do ajuste fiscal, o ex-secretário enfatiza a importância de melhorar a governança pública e privada. "É o resultado de não crescer. E, quando não cresce, vira um jogo de roubar monte", diz. Ele menciona casos de corrupção e lobbies setoriais que paralisam o país. "Isso está se tornando, junto com a questão fiscal, paralisante", conclui.

Perspectivas para o novo governo

O economista acredita que o próximo governo terá dificuldades para implementar mudanças profundas na governança, devido à atuação do Congresso, descrito como "uma selva de ninguém, sujeito a todos os lobbies". Ele ressalta que a produtividade do país não cresce, e sem crescimento, "vira um jogo de rouba-monte".

"O ano que vem será dificílimo", reitera Mendonça de Barros, projetando baixo crescimento, inflação elevada e juros altos, com eficácia decrescente dos programas sociais.

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