O Japão, reconhecido mundialmente por sua tradição empresarial e cultura de respeito, tem se revelado um dos laboratórios contemporâneos mais interessantes de governança corporativa. A conclusão é de Adriane de Almeida, diretora de Ensino e Inovação do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), que analisa os acontecimentos recentes no país asiático.
A confiança abalada
Segundo a especialista, o Japão percebeu que a confiança não pode repousar apenas sobre reputações construídas no passado. "Nem mesmo culturas empresariais admiradas internacionalmente blindam empresas contra fraudes e falhas graves de governança", afirma Almeida, citando exemplos como os escândalos contábeis da Olympus e da Toshiba, que abalaram a credibilidade do mercado japonês. Esses casos revelaram fragilidades nos sistemas de controle interno e na supervisão dos conselhos de administração, levando a multas bilionárias e à perda de valor de mercado.
Lições para o Brasil
A análise da diretora do IBGC aponta que o caso japonês oferece ensinamentos valiosos para empresas brasileiras. A necessidade de transparência, independência dos conselhos e mecanismos robustos de compliance são temas que ganham relevância tanto no Japão quanto no Brasil. "A governança não é um destino, mas uma jornada contínua de aperfeiçoamento", destaca. No Brasil, onde o mercado de capitais ainda busca amadurecimento, os exemplos japoneses servem como alerta para que as companhias não descuidem da ética e da prestação de contas.
O papel da cultura empresarial
Tóquio, a capital japonesa, é palco de uma transformação silenciosa. As empresas locais estão revendo suas estruturas de controle após sucessivos casos de irregularidades. A foto de Steven Diaz/Unsplash que ilustra este artigo mostra a imponência da cidade, mas os bastidores revelam uma crise de confiança que exige respostas institucionais. Para Almeida, a cultura de lealdade e hierarquia, antes vista como trunfo, mostrou-se um obstáculo para a denúncia de irregularidades. "O Japão está aprendendo que a conformidade não pode ser sacrificada em nome da harmonia", observa.
Casos emblemáticos
Entre os episódios que marcaram a guinada na governança japonesa estão o escândalo da Olympus, em 2011, que envolveu um esquema de perdas ocultas de mais de 1,7 bilhão de dólares, e o da Toshiba, em 2015, com fraudes contábeis que inflaram lucros em anos consecutivos. Mais recentemente, a Nissan enfrentou acusações contra seu ex-presidente Carlos Ghosn, evidenciando falhas na remuneração e na transparência. Esses casos forçaram o governo japonês a endurecer as regras de governança, incluindo a exigência de conselheiros independentes e a adoção de códigos de conduta mais rígidos.
A reação regulatória
Em resposta aos escândalos, a Bolsa de Valores de Tóquio implementou reformas significativas, como a obrigatoriedade de comitês de auditoria e a divulgação de políticas de remuneração. O Código de Governança Corporativa do Japão, revisado em 2018, passou a recomendar a nomeação de pelo menos dois conselheiros independentes e a adoção de práticas de engajamento com acionistas. Essas medidas visam restaurar a confiança dos investidores estrangeiros, que representam cerca de 30% do capital da bolsa japonesa. Segundo Almeida, o Brasil pode se inspirar nesse movimento, mas deve adaptar as soluções à sua realidade.
O futuro da governança no Japão
O caminho japonês mostra que mesmo culturas empresariais admiradas podem falhar se não houver vigilância constante. A diretora do IBGC ressalta que a governança corporativa no Japão está em evolução, com empresas adotando práticas mais transparentes e conselhos mais ativos. No entanto, desafios persistem, como a resistência à mudança em empresas familiares e a lentidão na implementação de reformas. Para o Brasil, a mensagem é clara: a confiança se constrói com ações concretas, não com tradição. O Japão, ao se reinventar, oferece um roteiro de como transformar crise em oportunidade de aperfeiçoamento.



