A indefinição sobre os rumos da sucessão estadual em Minas Gerais já começa a ameaçar a base de apoio do governador Romeu Zema (Novo) para as eleições de 2026. De acordo com análise do cientista político Carlos Melo, do Insper, a falta de um nome claro para suceder Zema pode fragmentar a coalizão que o elegeu e dificultar a governabilidade nos próximos anos.
Cenário de incerteza política
Zema, que foi reeleito em 2022 com amplo apoio de partidos de centro-direita e setores do agronegócio, enfrenta agora o desafio de manter unidos esses grupos em torno de um sucessor. O governador não pode concorrer a um terceiro mandato consecutivo, e a disputa interna já mobiliza nomes como o vice-governador Mateus Simões (Novo) e o senador Rodrigo Pacheco (PSD).
Segundo levantamento do jornal Valor Econômico, a indefinição já afeta a articulação política no Legislativo mineiro. Deputados estaduais e federais da base aliada têm demonstrado insatisfação com a falta de diretrizes claras sobre quem será o candidato do grupo. “Sem uma definição, cada partido começa a olhar para seus próprios interesses, e a união se desfaz”, afirmou o deputado estadual João Vitor Xavier (Cidadania), em entrevista ao Valor.
Riscos para a governabilidade
A situação coloca em risco a aprovação de projetos prioritários do governo Zema, como as reformas administrativa e tributária estadual. A oposição, liderada pelo PT e pelo PSB, já sinaliza que pode aproveitar a fragilidade para avançar com pautas próprias. “Se a base não estiver coesa, o governo vai perder força no Legislativo e pode enfrentar dificuldades para aprovar até mesmo o orçamento”, explicou a analista política Maria do Carmo Carvalho, da UFMG.
Dados do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais mostram que, nas últimas eleições, a coligação de Zema obteve 58% dos votos válidos no primeiro turno. No entanto, pesquisas internas do Novo indicam que a rejeição ao governo subiu de 32% para 39% nos últimos seis meses, o que pode influenciar as alianças futuras.
Movimentações nos bastidores
Nos bastidores, o PSD de Pacheco já iniciou conversas com partidos de centro-esquerda, como o MDB e o União Brasil, para construir uma candidatura própria, independente do Novo. Enquanto isso, o vice-governador Simões intensifica agendas no interior do estado para consolidar seu nome. “O governador Zema tem dito que não vai interferir no processo, mas a base precisa de um norte”, comentou o cientista político Paulo Sérgio de Oliveira, da PUC Minas, em declaração ao Valor.
A indefinição também impacta as relações com o governo federal. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já sinalizou que pretende lançar um candidato forte em Minas Gerais, estado que considera estratégico para sua reeleição em 2026. “Se Zema não conseguir unificar sua base, Lula pode aproveitar a brecha para eleger um aliado”, afirmou o analista político Antônio Augusto de Queiroz, do Diap.
Próximos passos
O governador Romeu Zema deve se reunir nos próximos dias com lideranças partidárias para tentar alinhar o apoio a um nome de consenso. No entanto, fontes do Palácio da Liberdade afirmam que a decisão final só deve ser tomada no primeiro semestre de 2026. Até lá, a incerteza continuará sendo um fator de desgaste para a administração estadual.



