IA força sêniores a tarefas de juniores e ameaça formação profissional
IA força sêniores a tarefas juniores e ameaça formação

A esta altura, dizer que a inteligência artificial está revolucionando o cotidiano é o óbvio ululante. Mas um risco das obviedades é que elas podem esconder mudanças complexas que acontecem bem debaixo de nosso nariz, até que seja tarde demais para evitarmos um grande estrago.

Em pouquíssimo tempo, essa tecnologia alterou como tocamos nossas vidas e nossos negócios. O mercado de trabalho também está sendo sacudido, com ondas de demissões e de ansiedade, enquanto novas funções são criadas, e nos tornamos mais produtivos.

É fácil ver as transformações na superfície, nos processos e na própria tecnologia. Porém as novidades de maior impacto podem se ocultar nas camadas mais profundas da nossa psique.

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O desafio da transição acelerada

“O grande desafio é que essa transição está sendo mais rápida que todos os outros saltos que a gente deu na humanidade”, explica Ítalo Martins, diretor de Impacto e Inovação da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH). “Temos que fazê-la mais amena e mais fácil para quem está passando por ela.”

Nada disso é trivial, mas somos forçados a nos adaptar, principalmente quando isso ameaça nossa vida. Por exemplo, jovens do Vale do Silício, a Meca da inovação global, estão desistindo de cursar faculdades para fazer cursos profissionalizantes de construção civil. Eles adorariam ir para o ensino superior, mas desistem porque a IA está liquidando aos milhares os postos de trabalho para recém-formados nos EUA, especialmente na área de tecnologia digital.

Demissões de juniores e a bomba-relógio trabalhista

Aqui também há cortes, ainda que em magnitude menor. Discutimos o fenômeno de demissões de profissionais iniciantes, porque seus pares mais experientes estão assumindo suas funções com o apoio da IA.

Pela lógica do gestor de visão curta, isso parece genial por causa da economia na folha de pagamento. Mas a medida é uma bomba-relógio trabalhista, que explodirá quando sua equipe sênior deixar a empresa. Nessa hora, não haverá ninguém com a mesma capacidade para operar a IA, pois os juniores foram embora.

Juniorização de sêniores e perda de aprendizado

Há ainda dois outros fenômenos igualmente perturbadores no mercado, relacionados ao mau uso da IA, porém menos debatidos.

Um deles é a “juniorização” de profissionais sêniores. A partir do momento em que eles têm seu tempo parcialmente ocupado com tarefas que deveriam ser feitas pelos novatos demitidos, deixam de oferecer o mais nobre da sua experiência.

O último é quase um corolário dos anteriores. Começo a observar profissionais iniciantes usando a IA sofregamente em suas tarefas, muitas vezes pressionados por seus gestores, em nome da “produtividade”. Com isso, estão sendo menos expostos à busca de soluções para problemas complexos, que acabam delegados para os robôs. Sem esses desafios, ficam privados da experiência necessária para justamente se tornarem profissionais sêniores.

O problema sistêmico na formação de competências

Tudo isso desloca a discussão do lugar-comum de que a IA substitui empregos para o problema sistêmico de ela comprometer a própria cadeia de formação de competências nas organizações. E o problema não é da tecnologia, mas de gestões incompetentes que estão desmontando a escada pela qual as pessoas aprendem a tornar-se melhores profissionais, tudo em nome de economizar migalhas com a IA.

Estamos diante da primeira geração que fará mais coisas em menos tempo, mas aprenderá menos ao longo da carreira. Isso pode matar o patrimônio invisível das empresas de o conhecimento passar de uma geração de profissionais para a outra. É no trabalho cotidiano e na convivência entre iniciantes e veteranos que se forma a massa crítica capaz de sustentar a inovação.

Se os gestores não perceberem seu erro, a inteligência artificial acelerará a erosão silenciosa da troca do aprendizado humano pela conveniência. E sociedades que deixam de formar pessoas não conseguem sustentar seu próprio desenvolvimento.

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