Governo Lula vê tarifaço dos EUA como negociável só após eleições
Governo Lula vê tarifaço dos EUA como negociável após eleições

Integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva consideram que, na possibilidade de os Estados Unidos implementarem o tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros, a medida poderá ser negociada apenas após as eleições de outubro de 2026. Esse cenário tem sido levantado por auxiliares de Lula na hipótese de o governo americano apostar na vitória de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em outubro.

Cenário de negociação pós-eleições

O governo avalia que, após o anúncio das sanções, os EUA podem “reacomodar” o senso de urgência sobre a implementação da tarifa, com foco no resultado eleitoral. Uma decisão do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sobre o tema pode ser tomada a partir desta quarta-feira.

Embora o Palácio do Planalto pontue que não dá para antecipar a reação do governo de Donald Trump, auxiliares de Lula trabalham com um panorama em que os EUA podem optar por esperar o escolhido nas urnas para ver em quais parâmetros a negociação das novas taxas irão ocorrer. Lula e Flávio Bolsonaro são opções diametralmente opostas na mesa de negociação.

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Visão do governo Lula sobre interesses dos EUA

Na visão do governo Lula, os EUA consideram que, com Flávio, Trump teria mais facilidade para conseguir o que quer do Brasil, diferentemente da gestão petista. Em caso de vitória, Lula representaria a continuidade no modelo de relação comercial atual, evitando concessões aos EUA em troca de alívio tarifário e manutenção do discurso geopolítico em favor do multilateralismo e das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O governo Lula, por exemplo, não abre mão de qualquer concessão quanto ao Pix, apontado pela investigação do USTR como instrumento que cria vantagens competitivas em relação a empresas privadas estrangeiras, como cartões de crédito, e nem de eliminar o imposto de importação do etanol americano — o que teria forte impacto no mercado interno.

Próximos passos e reação do Brasil

A partir da decisão do governo americano na quarta-feira, o Palácio do Planalto vai calibrar uma resposta e passar a discutir a reação. Há a expectativa de que, junto com o tarifaço, os EUA anunciem o processo de implementação da decisão. A possibilidade de reciprocidade nas sanções será discutida apenas quando o governo tiver em mãos a lista de produtos que sofrerá as sanções.

Auxiliares de Lula pontuam que é fundamental aguardar a decisão dos EUA e ver item a item que sofrerá com a tarifa, para então medir e planejar a reação do governo brasileiro.

Flávio Bolsonaro pediu adiamento e deu munição a Lula

Em documento enviado ao USTR, Flávio Bolsonaro afirmou que a sobretaxa proposta sobre produtos brasileiros daria a Lula “exatamente a vitória política que ele vem buscando” e sugeriu que a negociação ocorresse após as eleições, “uma vez que o cenário político que determinará a viabilidade de qualquer solução negociada será redefinido dentro de aproximadamente noventa dias.”

“Separadamente, e como uma questão de momento, e não de quem se beneficia: o Brasil realizará eleições gerais em outubro de 2026, e o cenário político que determinará a viabilidade de qualquer solução negociada será redefinido dentro de aproximadamente noventa dias. Adotar uma medida irreversível agora — no momento de maior impacto de mobilização política — representa um mau uso do timing para qualquer instrumento de pressão, independentemente de qual partido isso favoreça. Preservar as opções disponíveis é a escolha estratégica superior”, disse Flávio ao USTR.

O pedido de adiamento em vez de cancelamento foi usado por Lula para criticar o senador.

Contexto do tarifaço e investigação do USTR

O tarifaço foi sugerido pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), órgão responsável pela política comercial do país, e classifica uma série de atos, políticas e práticas brasileiras como “irracionais” ou capazes de restringir o comércio norte-americano. A investigação foi aberta em julho de 2025 por determinação do presidente dos EUA, Donald Trump, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, instrumento já utilizado em disputas comerciais contra a China.

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Entre os principais pontos apontados pelos americanos está o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, o Pix. Segundo o relatório, o Banco Central do Brasil atuaria simultaneamente como regulador e operador do sistema, criando vantagens competitivas em relação a empresas privadas estrangeiras que oferecem serviços de pagamento digital.

Os EUA também questionam decisões de tribunais brasileiros envolvendo plataformas digitais. O documento afirma que autoridades judiciais emitiram ordens sigilosas para remoção de conteúdos políticos e suspensão de perfis em redes sociais, inclusive de residentes nos Estados Unidos.