A indefinição sobre a escolha do vice na chapa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para a Presidência da República em 2026 remete ao cenário vivido por seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, em 2018. Na ocasião, o então candidato do PSL chegou à convenção nacional sem o companheiro de chapa definido e anunciou o general Hamilton Mourão de última hora, após descartar a advogada Janaina Paschoal. Quatro anos depois, Bolsonaro mudou de estratégia, preteriu Mourão e anunciou antecipadamente o general Walter Braga Netto.
Janaina Paschoal quase foi vice em 2018
Durante a pré-campanha de 2018, Janaina Paschoal foi o principal nome cotado para a vice-presidência. Ela foi recebida na convenção nacional do PSL aos gritos de “vice” ao subir ao palco, mas o nome não foi oficializado. Autora do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, Paschoal fez um discurso defendendo a pluralidade de opiniões e alertou para o risco de o grupo se tornar “um PT ao contrário”. “Não se ganha a eleição com pensamento único. Não se governa uma nação com pensamento único. Essa parte é muito importante: os seguidores, muitas vezes, do deputado Jair Bolsonaro têm uma ânsia de ouvir um discurso uniformizado. Pessoas só são aceitas quando pensam exatamente igual nas mesmas coisas. Reflitam se nós não estamos correndo risco de fazer um PT ao contrário”, disse, segundo relatos da época.
O comentário desagradou militantes e aliados de Bolsonaro, que passaram a articular outros nomes, como o astronauta Marcos Pontes, o deputado Marcelo Álvaro e o príncipe Luiz Philippe de Orleans e Bragança. No entanto, o escolhido foi o general Hamilton Mourão, na época filiado ao PRTB e presidente do Clube Militar. O anúncio ocorreu em 5 de agosto, data-limite para convenções, na convenção do PSL em São Paulo. Na véspera, Janaina anunciou que havia recusado o convite.
Mourão perdeu espaço para Braga Netto em 2022
Durante o governo Bolsonaro, Mourão acumulou atritos com o presidente e perdeu espaço no círculo próximo de aliados. Em 2022, foi preterido pelo general Walter Braga Netto, então ministro da Defesa, para a vice na chapa presidencial. O anúncio de Braga Netto foi formalizado no final de junho, quase um mês antes da convenção nacional do PL. Naquela ocasião, as alianças com União Brasil e Republicanos já estavam desenhadas e endossaram a candidatura à reeleição em julho.
Flávio Bolsonaro enfrenta dificuldades para formar coalizão
O cenário atual contrasta com o de 2022. Flávio Bolsonaro enfrenta resistência do Centrão para fechar alianças. O União Brasil, agora federado ao PP, tende a declarar neutralidade na disputa nacional. Integrantes do grupo admitem que pode haver apoio de líderes locais em estados onde candidatos bolsonaristas são favoráveis, como São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. No Rio de Janeiro, berço político de Flávio, há tendência de recuo de uma aliança entre o União Progressista e o PL.
Por trás do distanciamento, membros da federação apontam que a relação de proximidade entre Flávio e Daniel Vorcaro, protagonista do escândalo de fraude financeira do banco Master, afastou o apoio dos partidos. O presidente do PP, Ciro Nogueira, que já foi alvo de operação da Polícia Federal por suposto uso do mandato para beneficiar Vorcaro, queixou-se a aliados da forma como Flávio tratou o episódio, tentando se distanciar do caso.
Com o Republicanos, aliados de Flávio consideram que ainda há margem para negociação, que pode incluir a indicação do vice na chapa presidencial pelo partido. No entanto, o presidente da legenda, Marcos Pereira, tem demonstrado pessimismo e aponta dificuldades no apoio do PL a candidatos do Republicanos a governadores, condição essencial para um acordo nacional. Pereira também quer que o PL abra mão de candidaturas em Mato Grosso e Roraima em troca do apoio à chapa nacional.



