A pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) está desenvolvendo um programa voltado exclusivamente para o eleitorado feminino, com o objetivo de reduzir sua resistência entre as mulheres. Coordenado pela ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques, o documento reúne propostas de combate à violência doméstica, empreendedorismo feminino e economia do cuidado. O texto será discutido na próxima quarta-feira por parlamentares e lideranças femininas da direita, antes do lançamento oficial em julho.
Diagnóstico eleitoral motiva nova estratégia
Segundo integrantes da campanha, a iniciativa partiu da avaliação de que a segurança pública — principal bandeira de Flávio — continua sendo um ativo eleitoral importante, mas não seria suficiente para ampliar sua competitividade entre as mulheres. A estratégia passou a ser construir uma agenda que associe o discurso de endurecimento contra a criminalidade a propostas voltadas à autonomia financeira, geração de renda e reconhecimento do trabalho de cuidado.
O projeto ganhou prioridade após Michelle Bolsonaro tornar pública a crise com o senador, episódio que aumentou a preocupação de aliados com os reflexos da disputa interna sobre um dos segmentos em que o pré-candidato enfrenta maior dificuldade eleitoral.
Daniella Marques amplia papel na campanha
A elaboração da proposta também ampliou o espaço ocupado por Daniella Marques dentro da campanha. Escalada há cerca de duas semanas para formular o programa econômico e participar da interlocução com empresários, banqueiros e investidores — em uma tentativa de reforçar a mensagem de responsabilidade fiscal e reconstruir pontes com o mercado financeiro após a crise envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro —, a ex-presidente da Caixa recebeu também a missão de coordenar a plataforma voltada às mulheres.
Nos bastidores, integrantes da equipe afirmam que a decisão de ampliar a agenda feminina atende a um diagnóstico recorrente nas pesquisas qualitativas realizadas pela campanha. A leitura é que o eleitorado feminino espera propostas relacionadas ao cotidiano das famílias e à autonomia econômica, temas que não vinham sendo suficientemente explorados pelo discurso da candidatura. A intenção não é substituir a segurança pública como principal marca de Flávio, mas complementá-la com pautas capazes de ampliar o diálogo com esse segmento.
Três eixos do programa: proteção, oportunidades e cuidado
O programa foi estruturado em torno de três eixos. O primeiro, proteção, reúne propostas voltadas ao enfrentamento da violência contra a mulher. Além de incorporar medidas já defendidas por Flávio, como a ampliação do uso de tornozeleiras eletrônicas para agressores e acusados de violência doméstica e a defesa da castração química para condenados por estupro, a campanha pretende incluir iniciativas de fortalecimento da rede de proteção às vítimas e aperfeiçoamento dos mecanismos de prevenção.
O eixo das oportunidades concentra a principal inovação do documento. A proposta parte do entendimento de que a dependência financeira é um dos fatores que dificultam o rompimento de ciclos de violência doméstica. Por isso, a campanha pretende defender políticas de incentivo ao empreendedorismo feminino, ampliação do acesso ao microcrédito, inclusão produtiva, qualificação profissional e geração de renda. A avaliação da equipe é que ampliar a autonomia econômica das mulheres deve ser um dos pilares da plataforma.
Já o terceiro eixo aborda a chamada economia do cuidado, conceito que engloba o trabalho doméstico não remunerado e os cuidados com filhos, idosos, pessoas com deficiência e outros familiares, atividades exercidas majoritariamente por mulheres. A campanha pretende apresentar medidas de apoio às cuidadoras e iniciativas destinadas a reduzir essa sobrecarga. Entre os estudos utilizados pela equipe está um levantamento segundo o qual esse conjunto de atividades representa cerca de 8,5% do Produto Interno Bruto (PIB), argumento que embasa a defesa de políticas públicas específicas para esse público.
Reunião com lideranças femininas define estratégia
A primeira versão do documento será debatida na próxima quarta-feira em uma reunião coordenada por Daniella Marques. O encontro reunirá lideranças femininas da direita para discutir o conteúdo da proposta e sugerir alterações antes do lançamento. Devem participar a senadora Tereza Cristina (PP-MS), as deputadas Bia Kicis (PL-DF) e Simone Marquetto (MDB-SP), além de outras parlamentares e dirigentes partidárias. A campanha pretende aproveitar o encontro para definir a estratégia de divulgação do programa e o papel de cada uma dessas lideranças na apresentação da agenda ao longo da pré-campanha.
A expectativa é que o programa seja incorporado ao discurso de Flávio já nas primeiras agendas de julho. A avaliação de aliados é que, além de responder ao desgaste provocado pela crise com Michelle Bolsonaro, a plataforma representa uma tentativa de ampliar o alcance eleitoral da candidatura.



